Em uma pequena caixa preta, em um armário logo ao lado da minha mesa, guardo um dos meus poucos bens mais preciosos: um conjunto de cartas Oblique Strategies, autografado por seu co-criador, o artista e músico Brian Eno. As cartas, cada uma com uma breve instrução, servem como estímulos para pessoas criativas. Algumas são práticas: "Faça uma lista exaustiva de tudo o que você poderia fazer e faça a última coisa da lista." Algumas são enigmáticas: "Uma linha tem dois lados." Outras certamente irritariam a maioria dos músicos profissionais: "Troque os papéis dos instrumentos." Essas instruções visam estimular conversas úteis entre os integrantes de uma banda, lembrar produtores de opções ou perspectivas que talvez tenham esquecido e, acima de tudo, forçar artistas experientes a abandonar seus clichês confortáveis e encontrar uma nova abordagem. Meu livro "Messy", de 2016, elogia essas cartas e explica por que elas, e outros pequenos incômodos semelhantes, são estímulos tão poderosos para resolver problemas. É curioso, portanto, que eu raramente as utilize. Não estou sozinho nessa relutância. Quando Eno convenceu David Bowie a adotar as cartas durante a gravação de sua célebre trilogia de Berlim —"Low", "Heroes" e "Lodger"—, os músicos que trabalhavam com ele nem sempre apreciaram a intervenção. Carlos Alomar, um dos maiores guitarristas do mundo, acabou tocando bateria na faixa "Boys Keep Swinging". ("Troque os papéis dos instrumentos.") Mais tarde, Alomar refletiu: "Quero dizer, algumas coisas funcionaram, outras não... Mas isso me fez deixar de lado a frustração com o que eu estava fazendo e olhar para aquilo de um ponto de vista completamente diferente. E, embora eu não tenha gostado dessa perspectiva, quando voltei, estava renovado." O poeta Simon Armitage descreveu as cartas "como se você estivesse pedindo para o sangue do seu cérebro fluir em outra direção", o que certamente não parece uma experiência confortável. Mas o mundo está cheio de obstáculos desconfortáveis que despertam uma resposta voltada para a resolução de problemas. Um dos meus exemplos favoritos é a greve de trabalhadores do metrô de Londres em 2014, que interrompeu o transporte por 48 horas e levou dezenas de milhares de passageiros a mudar seus hábitos de deslocamento após descobrirem que estavam fazendo o trajeto diário da maneira menos eficiente. Um experimento de laboratório realizado em 2009 investigou o impacto de interações difíceis dentro de equipes. Os pesquisadores deram a pequenos grupos 20 minutos para resolver um mistério de assassinato de múltipla escolha. Em alguns casos, os grupos eram compostos por quatro estudantes da mesma fraternidade universitária feminina. Em outros, três amigas da fraternidade eram acompanhadas por uma desconhecida, criando um atrito social desconfortável. Os pesquisadores descobriram que as equipes com a estranha resolveram o problema muito melhor, mas gostaram menos da tarefa e tiveram maior probabilidade de acreditar que haviam fracassado. Em resumo: o grupo mais desconfortável teve melhor desempenho, mas acreditou que tinha ido pior. De situações sociais que provocam ansiedade ao caos no transporte público e às confusões geradas aleatoriamente, podemos chamar esses estímulos para a resolução de problemas de "interrupções desejáveis". O problema é que, embora possam ser desejáveis, raramente são desejadas. Poucas pessoas apreciam uma greve do metrô ou o constrangimento de conversar com um desconhecido —e talvez isso explique por que o baralho Oblique Strategies no meu armário quase nunca seja usado. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. O que nos leva ao tema dos jogos, que, segundo o filósofo Bernard Suits, são "a tentativa voluntária de superar obstáculos desnecessários". O contraste entre essa definição e essas interrupções desejáveis é marcante. Encontrar um caminho melhor para o trabalho quando a rota habitual está bloqueada não é um jogo —é uma tentativa relutante de superar obstáculos inevitáveis. O mesmo vale para o esforço desconfortável de resolver um problema discutindo com alguém que você nunca conheceu e com quem não tem nenhum ponto em comum evidente. Quanto às Oblique Strategies, elas podem ser algo próximo de um jogo se o projeto criativo for seu e o baralho também. Mas, se você é um músico trabalhador e Bowie e Eno continuam obrigando você a participar do experimento deles, dificilmente a experiência parecerá divertida. Será que os jogos são o ingrediente que falta? Há muitas razões para acreditar que os jogos conseguem nos motivar a ir além de nossos próprios limites de maneiras que normalmente resistiríamos. Uma revisão das evidências experimentais conclui que a atividade física pode ser incentivada por elementos de gamificação, como "pontos, níveis, recompensas, rankings, narrativas e equipes" —uma constatação que será familiar para qualquer pessoa que já tenha sido fisgada por contadores de passos e relógios esportivos. A ironia é que a gamificação é uma imitação frágil de um jogo de verdade. Um bom jogo pode nos levar a feitos notáveis de concentração, ao domínio de informações complexas ou a explosões de esforço físico que nos deixam sem fôlego (ou, quando chegamos a certa idade, arrependidos por não termos feito um aquecimento). Minhas próprias atividades com jogos incluem aprender não apenas as regras, mas também algumas das melhores estratégias para uma desconcertante variedade de jogos de tabuleiro, além de superar minha timidez e introversão para participar de longas sessões de RPG, que nada mais são do que intensas interações sociais disfarçadas. Cheguei até a tentar fazer parada de mãos, embora eu possa garantir que ficar em pé sobre os dois pés é muito mais fácil. Nenhum desses esforços desnecessários aconteceria sem o poder de atração do jogo. O mesmo vale para muitas atividades artísticas. Se você quiser retratar uma pessoa, pode simplesmente pegar um smartphone e tirar uma fotografia, ou pedir que ela pose enquanto você desenha ou pinta. Não há dúvida de que a câmera do celular é a opção mais fácil, mas, como afirma o escritor e especialista em criatividade Austin Kleon, "um bom hobby deve parecer um pouco cansativo" . Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. É tentador, portanto, defender que adotemos mais o espírito da brincadeira no que fazemos. Se encarássemos diferentes trajetos para o trabalho como uma espécie de jogo, não precisaríamos esperar por uma greve do metrô para descobrir um caminho mais rápido ou agradável. Trabalhar com desconhecidos é difícil, o que talvez explique por que tantas dinâmicas de integração são, na prática, jogos. E, se eu conseguisse tratar o baralho Oblique Strategies mais como um jogo do que como um mecanismo caprichoso de criar dificuldades, talvez aproveitasse seus estranhos benefícios com mais frequência. Mas é preciso ter cuidado. "Faz parte da natureza humana jogar", disse-me o grande designer de jogos de tabuleiro Klaus Teuber há quase 20 anos, acrescentando: "É uma forma de escapar da rotina do dia a dia." Há muito a ser dito em favor de uma postura mais lúdica no trabalho, mas também existe o risco de transformar nossos prazeres em obrigações. Afinal, quando um jogo passa a ter um propósito mais amplo, ele corre o risco de deixar de ser divertido. E um jogo que não é divertido dificilmente continua sendo um jogo.
O grande poder dos pequenos inc�modos
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.