O furo do Alasca e o jornalismo profissional

O furo do Alasca e o jornalismo profissional

Na véspera das decisivas eleições de meio de mandato que levaram Donald Trump a perder o controle do Congresso e ver diminuído seu poder pelos próximos dois anos, seus últimos na Casa Branca, o New York Times publicou importante informação exclusiva sobre a corrida senatorial no Alasca. O jornal revelou que assessores da candidata democrata Mary Peltola recrutaram e fizeram campanha para um homônimo de seu rival republicano, Dan Sullivan, como maneira de dividir os votos no oponente, numa corrida que será decidida por uma margem ínfima. Até este texto ser publicado, a estratégia vinha dando certo. Na apuração parcial desta quarta-feira (4), o Sullivan verdadeiro liderava por 974 votos a mais que Peltola, enquanto o homônimo somava 3.498 votos. Se nenhum candidato superar 50% dos votos de primeira preferência, os votos da segunda preferência serão redistribuídos em 18 de novembro. A Justiça pode entrar no caso. Kellen Browning, repórter do "Times", ouviu 12 pessoas ao longo de dois meses e reuniu documentos e dezenas de mensagens. Uma das fontes era Elisa Rios, ex-chefe da campanha de Peltola, demitida em agosto. Ela dera entrevistas que podiam ser publicadas. Quando o jornal se preparava para soltar a reportagem, pediu por escrito para retirar tudo o que dissera. No relato de bastidores publicado no último sábado (31), o jornal explicou por que manteve o depoimento. O restante da apuração corroborava as declarações de Rios. O "Times" contou ao leitor da demissão e do pedido de retirada e publicou as negativas da campanha e do comitê democrata para o Senado. O furo pode ter custado votos decisivos a Peltola. Mas adiá-lo para depois da eleição teria privado os eleitores da informação quando ela mais importava. Seguindo a tradição da imprensa americana, o conselho editorial do "Times" apoiou Hillary Clinton em 2016, Joe Biden em 2020 e Kamala Harris em 2024. Em 2018, defendeu que os democratas retomassem a Câmara para impor limites a Donald Trump. Na véspera do furo, pediu em editorial que os americanos levassem em conta a atuação de Trump, bastante criticada pelo jornal, ao votar para o Congresso. Dicas do Editor Receba no seu email a seleção de notícias feita pelo diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila Na Folha, seguimos outra tradição. O jornal se abstém de recomendar candidaturas nos pleitos brasileiros. Em 2010, ao reafirmar seus princípios para a cobertura eleitoral, a Folha já usava o "Times" como contraponto. O diário americano havia recomendado Barack Obama. Aqui, o Projeto Editorial prescrevia distância em relação às correntes de interesse e uma cobertura crítica, pluralista e apartidária. O compromisso é reafirmado a cada eleição presidencial. O último foi editorial publicado na véspera do segundo turno brasileiro, "Democracia e Rigor Fiscal para Reduzir os juros e a pobreza". Nele, a Folha reafirma o compromisso de não recomendar voto em partidos ou nomes, explicando que a opção pelo apartidarismo fortalece a posição de submeter ao crivo da crítica qualquer um que saísse vencedor. O que nos une ao jornal norte-americano é a primazia do jornalismo profissional. Daí a importância que damos ao furo, à informação de interesse público que a Redação apurou e que o leitor ainda desconhece. O caso do New York Times é exemplar. Num jornal cuja linha editorial e cuja Redação são marcadamente contrárias a Donald Trump e favoráveis aos democratas, a tarefa de exercer o escrutínio jornalístico sem concessões torna-se mais difícil quando os fatos contrariam suas próprias preferências políticas. Mas não impossível. Ao trazer à luz uma manobra que poderia favorecer Trump e prejudicar os democratas, o jornal mostrou que o compromisso com a apuração dos fatos deve prevalecer sobre as inclinações partidárias. Afinal, o jornalismo só cumpre sua função quando está disposto a revelar o que incomoda, doa a quem doer —inclusive a si próprio.

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