Há uma transformação silenciosa em curso. O mercado, cansado de esperar que a universidade entregue profissionais preparados para seus desafios, passou a formar a mão de obra de que precisa. Não se trata apenas de treinamentos internos. Crescem ecossistemas corporativos de formação, com certificações, academias digitais, "bootcamps" e programas de requalificação voltados ao mercado de trabalho.Google, Microsoft e IBM oferecem certificações em tecnologia e dados, muitas delas sem diploma. No Brasil, o Mercado Livre vincula contratações ao IT Bootcamp, enquanto as Apple Developer Academies formam estudantes em parceria com universidades. O movimento já alcança a graduação. O MEC autorizou o grupo J&F a criar uma faculdade em áreas estratégicas para seus negócios. XP e Inteli também disputam espaço com cursos reconhecidos pelo ministério. O sucesso da Faculdade Israelita Albert Einstein mostra que instituições ligadas ao setor privado podem conquistar prestígio acadêmico. A fronteira entre mercado e academia tornou-se permeável. A Brasil Terminal Portuário formou quase cem profissionais por meio de sua universidade corporativa. Quando empresas estruturam a própria formação, o protagonismo histórico das instituições de ensino superior sofre um abalo. A questão é saber o que restará da universidade se formação prática, certificação e atualização profissional forem oferecidas com mais velocidade pelo mercado. Durante décadas, a universidade ocupou posição central na organização do conhecimento. Hoje, empresas identificam competências, desenham cursos, contratam especialistas, certificam e conectam alunos ao emprego. Muitas universidades ainda operam com semestres, grades rígidas e estruturas lentas. Segundo o Censo da Educação Superior de 2024, a rede privada concentra quase 80% das matrículas de graduação. Perder relevância terá consequências financeiras e acadêmicas. O risco alcança os professores. Se corporações remuneram melhor especialistas em áreas estratégicas, as instituições perdem atratividade para docentes e profissionais de fronteira. O professor não pode continuar sendo tratado apenas como hora-aula.A universidade, porém, não deve competir com o mercado, imitando-o. Sua missão inclui pensamento crítico, ciência, responsabilidade pública, densidade ética e compreensão histórica. Forma profissionais capazes não apenas de ocupar postos de trabalho, mas de transformá-los. Essa missão não autoriza imobilismo. É preciso ampliar formação continuada, certificações curtas, projetos aplicados, laboratórios de inovação, pesquisa financiada e integração com empresas, governos e sociedade civil. Empregabilidade e formação humanística podem caminhar juntas. Aproximar-se do setor produtivo não significa renunciar à autonomia. Isolamento não é independência. Uma universidade isolada não é mais livre, apenas menos relevante. O mercado forma pessoas. A questão é se a universidade brasileira continuará sendo o lugar em que conhecimento, trabalho, ciência, cultura e desenvolvimento se encontram. Sem uma resposta, poderá ser substituída aos poucos por atores mais ágeis e atentos ao futuro. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
O diploma ainda basta?
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