O dia do voto deveria ser nosso, dos brasileiros. Será deles, dos porcos. Ganhe um ou outro, eles já triunfaram: lulistas e bolsonaristas decidiram que, no vale tudo, vale brincar com Deus. Na minha juventude, mulheres passeavam de minissaia nas ruas de Cabul e não se imaginava uma polícia religiosa em Teerã. Nenhum republicano atribuía ao presidente dos EUA uma missão divina. Inexistia um partido relevante em Israel que, batizando-se Sionismo Religioso, clamava por limpeza étnica em nome do judaísmo. A explosão mundial do ardor religioso manifesta-se pela infiltração da fé no terreno da política. O Brasil corre o risco de deslizar para esse abismo, empurrado pelos porcos. Na França, ao longo de 36 anos, a guerra entre católicos e huguenotes matou cerca de 3 milhões, um quinto da população total. O Edito de Nantes (1598), que encerrou o conflito e garantiu direitos ao que restava dos protestantes, ensaiou implantar no Ocidente o princípio da tolerância religiosa. A secularização do Estado chegaria com as revoluções americana e francesa, no século 18, e o conceito de laicidade estatal, apenas no outono do século 19. São bens preciosos, mas frágeis, como mostram Cabul, Teerã, Jerusalém e Washington. Os porcos simulam fé e ardor, na busca por votos. Os bolsonaristas começaram tudo, com as sessões de oração promovidas por Michelle no Planalto, em 2022. A ideia, segundo palavras dela, era purificar um palácio "consagrado a demônios" em governos anteriores. Hoje, diante de uma paisagem eleitoral perigosa, os lulistas seguem o rastro de seus rivais, empatando o jogo da infâmia. Marcham com a mentira numa mão e a imagem de Nossa Senhora na outra. O Brasil tornou-se um Estado laico em 1890. O princípio foi inscrito na Constituição de 1988 sob forma dupla e complementar: a proibição de alianças entre Estado e igrejas (artigo 19) e o livre exercício de crença religiosa (artigo 5). Os constituintes sabiam que o único alicerce sólido da liberdade de religião é a separação entre o poder estatal, público, e as igrejas, entidades privadas. Brincando com Deus, misturando fé com política, os porcos chutam a Constituição. Não é de agora. As igrejas obtiveram as mais extensas isenções tributárias, fruto de favores de governos e parlamentares às custas do dinheiro de todos. Bispos de negócios converteram seus púlpitos subsidiados em palanques eleitorais. Mas o jogo alcança um ápice quando a campanha petista agarra-se a uma notícia desmentida para atiçar uma guerra de religião. Lula declara não saber se a notícia falsa é verdadeira e, memorioso, encena santa indignação contra um chute na santa ocorrido 31 anos atrás, enquanto sua guerrilha digital assegura que a mentira veicula a verdade. Já entraram em campo cabos eleitorais concorrentes, disfarçados atrás das togas ilusórias de ministros do STF. Numa ponta, André Mendonça, paladino da liberdade de expressão, exige censura judicial. Na ponta oposta, Flávio Dino, cavaleiro andante da censura às fake news, clama por respeito à liberdade de expressão. De quebra, em linha com sugestão de Lula, manda a PF investigar indícios de ataques a imagens religiosas. Sob tortura, a mentira tem que ser transformada em verdade. Cabul, Teerã, Jerusalém, a Washington de Trump? Os porcos não se importam: querem o teu voto. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
O dia dos porcos
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