Por uma dessas coincidências do mundo dos livros, caíram-me nas mãos recentemente obras de dois excelentes autores, ambos italianos e ambos, à sua maneira, decididos a recuperar o impacto da Bíblia hebraica ou Antigo Testamento no século 21. Do primeiro, Roberto Calasso (1941-2021), autor de "O Livro de Todos os Livros", já falei nesta resenha. Agora é a vez de Aldo Cazzullo, 60, autor de "O Deus de Nossos Pais" (editora HarperCollins Brasil), que está prestes a sair no Brasil. A premissa do livro não poderia ser mais simples. Em pouco mais de 300 páginas, o piemontês Cazzullo, que tem uma longa carreira como jornalista em alguns dos principais veículos de imprensa da Itália, busca recontar o essencial das narrativas da primeira parte das Escrituras cristãs. (Aliás, seria até mais correto dizer "das Escrituras católicas", já que o autor inclui interessantes discussões dos livros de Tobias e Judite, por exemplo, que fazem parte do conjunto oficial de livros bíblicos do catolicismo, mas não da maioria das denominações protestantes.) Logo no início, ele traz uma breve justificativa autobiográfica para a empreitada: recomeçou a ler a Bíblia no leito de morte do próprio pai, como uma espécie de preparação espiritual para enfrentar a perda –daí, claro, o título da obra. Com a leitura, veio a constatação de outro mote importante do livro. "As gerações de nossos avós e nossos pais foram as últimas convictas de que viviam sob o olhar de Deus. E de ter que responder a Deus por suas próprias ações", escreve ele. "A nossa, atualmente na casa dos 50 anos, foi a primeira geração de agnósticos, a geração que sabia não saber." A sucessão de gerações é, claro, uma simplificação, e decerto não bate, em grande parte, com o cenário brasileiro. Mas, mesmo num país que tem se tornado cada vez mais evangélico, como o nosso, o ponto de partida de Cazzullo ainda se sustenta. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Em suma, trata-se da ideia de que, além dos efeitos da secularização, a familiaridade das pessoas com a Bíblia quase sempre é muito mais "de orelhada" (vale dizer, muito mais ligada a versões audiovisuais, trechos curtos ouvidos na missa ou no culto, adaptações para crianças) do que algo que derive de um contato constante e aprofundado com o texto bíblico em si. Também a exemplo de Calasso, Cazzullo está interessado sobretudo nos aspectos narrativos e literários da Bíblia. Mas, enquanto seu conterrâneo prima pela erudição e pela análise filológica do texto original e de suas traduções antigas, o autor de "O Deus de Nossos Pais" aposta na simplicidade, tentando pegar o leitor pela mão e apresentar o fascínio e a estranheza daquelas histórias para alguém que talvez as esteja encontrando pela primeira vez na vida adulta. O autor tem um olho arguto para tentar destrinchar as personagens e suas motivações, da família primordial de Adão e Eva no Gênesis às intrigas palacianas da corte de David e Salomão –um exercício que pode ser interessante e frustrante em igual medida, dada a economia de informações do texto bíblico, que às vezes resvala numa grande secura. Também há um esforço de contextualização histórica e exegética –ou seja, da história da interpretação das passagens mais importantes e/ou obscuras– modesto e breve, mas competente. Para os que estão dando os primeiros passos na compreensão da estrutura mais ampla da Bíblia, o livro deve ser uma leitura útil e prazerosa. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
'O Deus de Nossos Pais' � boa introdu��o � B�blia para os leigos
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