Citar risco e desastre no plano de governo virou comum nesta eleição de 2026. Dos 172 candidatos a governador com candidatura deferida no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que analisei, 128 (74,4%) tocam no assunto. Pelo critério da menção, a política brasileira já teria "feito as pazes" com a agenda climática. Basta, no entanto, ler o que está escrito para ver que a conta é outra. Dos 172, só 60 candidatos (34,9%) trazem ação concreta em metade ou mais das passagens sobre o tema, e apenas 4 (2,3%) amarram essa ação a meta, prazo, indicador ou orçamento. Expressões genéricas como "resiliência climática" ocupam o lugar do compromisso. Uma promessa sem meta nem prazo pode ser cumprida ou descumprida sem que ninguém consiga dizer qual das duas coisas aconteceu. Como cobrar o que não tem meta? Por sua vez, o dinheiro revela a distância entre o que se promete e o que se pode entregar. Onze candidatos citam valores em reais nas passagens analisadas e só três prometem gasto novo, Tarcísio (Republicanos) e Carlos Machado (PCB), em São Paulo, e Ben Mendes (Missão), em Minas Gerais. O restante aborda balanço de obra já entregue, crítica ao governo atual ou verba de outro assunto. Os planos também olham mais para antes do desastre. Entre os 172 candidatos, 71,5% tratam de prevenção e preparação, 34,9% de resposta e 24,4% de recuperação; e cada um pode aparecer em mais de uma fase. Só 27 (15,7%) cobrem o ciclo inteiro. Parte disso pode refletir o papel do governador, que responde mais por obras estruturais e mapeamento de risco. Ainda assim, a recuperação, momento em que a população mais depende do Estado, é a fase que menos aparece. Há ainda o problema de quem é mais atingido. Cada estado tem um tipo de desastre que domina seus registros, como seca, enchente ou queimada. No Piauí, 92% dos registros entre 2013 e 2025, feitos pelos municípios no sistema do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, são de seca, mas só 17% dos candidatos no estado a mencionam. Em 10 dos 27 estados, metade ou menos dos candidatos cita o tipo de desastre que mais atinge o próprio território. Além disso, os estados com mais registros por município não têm planos mais concretos. É possível que a enchente, visível e recente, como no Rio Grande do Sul, onde os seis candidatos a citam, renda mais discurso do que a estiagem, que castiga por anos os vários Brasis sem a mesma atenção. Os dados não testam essa hipótese. Vale lembrar os limites. O levantamento é descritivo e não passou por revisão de pares. A classificação foi feita por modelos de linguagem de código aberto. Desastres têm dia, hora e endereço, e as promessas para enfrentá-los deveriam ter também. Os planos registrados no TSE são a linha de base para depois da posse. Cabe ao eleitorado, à imprensa e aos tribunais de contas perguntar, diante de cada promessa, qual é a meta, até quando e com que dinheiro. Às candidaturas cabe escrever compromissos que possam ser conferidos ao fim do mandato, pois um plano sem meta, prazo e orçamento nunca fracassa, mas também nunca se cumpre. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
O desastre est� nos planos de governo
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