A vergonha disputa espaço com a profunda tristeza que habitou meu coração evangélico nestes longos dias de eleição. O voto de mulheres evangélicas, como eu, foi comentado à exaustão. Foram muitas as tentativas racionais de descolar o rótulo que colaram em nós. Pesquisas mostraram que "nem todo evangélico é igual"; que há diversidade entre as mulheres; que elas estão no chão da ação social da igreja; que vivem o feminismo pragmático; que não há lacração que resista à força do tecido social arduamente tricotado por elas.Se as tentativas de problematização foram muitas, temo constatar que a maior parte foi em vão. Ora a esquerda —investida de sua superioridade intelectual— nos reduz à mera massa de manobra (obviamente não sem uma boa dose de razão), ora os falsos profetas distorcem textos sagrados para se promover. E muitos de nossos irmãos continuam engolindo mentiras e ameaças em nome daquele que é a verdade. Parte da esquerda escolheu o caminho da rivalidade com esse eleitorado. Outra ficou com o distanciamento. Uma parcela minúscula de lideranças progressistas se dedica a entender de forma sincera os anseios do povo evangélico, que, não por acaso, ocupa a base da sociedade brasileira. Para o mal, o bolsonarismo fez isso muito bem. Ele se apropriou da linguagem das igrejas, explorou o nome de Deus, fortaleceu a lógica do medo e do pânico, sugou pautas de costume e conseguiu capilaridade pelo lado e por dentro das igrejas. Ainda que seus candidatos tenham relações históricas com corrupção, práticas promíscuas, casos de violência, desprezo às mulheres e vínculos com o crime organizado, uma multidão foi convencida de que é preciso apoiá-los em nome de Jesus.É o fim dos tempos, e ainda assim o tom destas eleições ignora que vivemos dias sob ameaça do El Niño, que o Rio Grande do Sul foi inundado por uma cheia histórica há dois anos e que isso custou mais de R$ 100 bilhões aos cofres da União. Que negros, pobres, mulheres e crianças estão sob o risco constante em uma emergência climática cuja sirene apitou há tempos. Nem parece que o mundo está colapsando em desastres climáticos, enchentes, ondas de calor, deslizamentos de terra. Pouco se falou de clima, de perda de safras, de falta de alimento, de água, de energia. A ministra do Meio Ambiente, reconhecida no mundo todo, perdeu a eleição para o Senado. Negacionistas se elegeram em estados gravemente afetados pelas chuvas. Candidaturas sérias que levantaram a bandeira da justiça climática foram praticamente ignoradas pelas urnas. Muitas das igrejas que decidiram apostar na politização esqueceram do "órfão e da viúva", das famílias que acolhemos quando a tempestade cai, das crianças que têm medo do barulho da chuva, daqueles que moram nas encostas. Ou não sabiam que é dever do Estado protegê-las e preferiram remediar danos, anestesiando a consciência com meia dúzia de doações paliativas.É inadmissível que o bolsonarismo tenha se tornado sinônimo da nossa fé, qualificando aquilo que pensamos sobre a vida em sociedade, o próximo, as desigualdades e a natureza. Para evangélicos como eu, sobrou a tristeza. A tristeza de ver gente seduzida por um discurso incoerente e vazio. Pelas instituições que dizem representar os valores cristãos, permitindo que sua estrutura sirva de plataforma para quem faz oposição à essência do Evangelho. Sinto indignação pelo sequestro e pela cegueira. E dor porque, do lado de dentro, a minha voz de denúncia soa à rebeldia. Eu sinto, sinto muito. A igreja é incoerente ao virar as costas para a política que constrói soluções aos mais necessitados e zela pela Criação. Mas a esquerda também é incoerente sempre que negligencia a estrutura social formada pela igreja evangélica no Brasil. Ela está conectada à vida das pessoas mais marginalizadas. Na convivência semanal, no socorro bem presente nos dias de angústia.E o bolsonarismo, ah!, ele não quer ajudar. Apenas nos colocou uns contra os outros, desviando nosso olhar do alvo legítimo. Basta. É tempo de abrir os olhos, se arrepender, pedir perdão e perdoar. É isso que Cristo nos ensina. Examinemos nossa consciência, não nos conformemos. O Brasil precisa de uma metanoia. Esse caminho ainda é solitário, mas precisa ser ocupado. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
O desabafo de uma crente sensata
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