O c�rebro do fugitivo

O c�rebro do fugitivo

Primeiro vem o cérebro do aspirante, que observa o pai modelar comportamentos recompensados com o cargo mais alto que ambos podiam almejar. São comportamentos que não deram lá muito certo no fim das contas, pois levaram o pai à prisão, mas tudo bem: as pesquisas mostram que o pai não só foi absolvido por seus seguidores, como também continua sendo louvado. O hipocampo do aspirante, que tem o sobrenome do pai, de quem ele também é a cara cuspida e escarrada, evoca memórias corticais recentes do pai no cargo desejado e orquestra com as estruturas da rede autorreferente uma nova memória, esta do futuro, facinha de conjurar: ele se enxerga naquele cargo mais alto. Várias estruturas do cérebro do aspirante titilam com o pensamento, então pronto: a imagem vira objetivo. O cérebro passa de aspirante a articulador, pois entende perfeitamente que um objetivo sem um plano não passa de um desejo, e começa por convencer os acólitos do pai que ainda têm poderes de que ele é o candidato daquele sobrenome com melhores chances de sucesso na disputa pelo cargo almejado. Não há de ser nada: tem sobrenome e cargo sobrando pra família toda, pois seus seguidores são fiéis. Tudo o que o aspirante precisa fazer é ajudar o hipocampo dos acólitos paternos a vislumbrar a si mesmos sendo recompensados de formas variadas, ao gosto do freguês. O aspirante é agora candidato: seu cérebro está em modo-execução-de-planos. Como dinheiro compra quase tudo, e o candidato conseguiu convencer os milionários à venda dos favores a colher no futuro oferecido, o candidato abonado compra três campanhas de marketing seguidas, focadas em fazer seu público associar o adversário com tudo de ruim em suas vidas, não importa que ainda por culpa do seu pai de mesmo sobrenome. As campanhas funcionam tão bem que fazem até o público ignorar os escândalos que se acumulam ao redor do candidato. É fácil, pois o cérebro enxerga o que quer, e afinal este candidato é jovem e bonitão, e o oponente é um sapo idoso que adicionou à barba um chapéu. O candidato agora tem um cérebro convencido, que já se vê do outro lado e começa a botar as manguinhas de fora, revelando o que planeja fazer. O cérebro convencido se delicia com a sensação antecipada da conquista que ele considera garantida. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Mas outros cérebros atrapalham seus planos. Articulados por uma campanha raiz, daquelas gratuitas, movidas à força da revolta com o futuro que se anuncia, eles entendem o problema, vislumbram uma possibilidade e semeiam esperança em mais de 10 milhões, que decidem que o esforço de sair de casa em nome da mera possibilidade de um futuro sem o nojento vale a pena. O aspirante-articulador-candidato-convencido é vencido, e seu cérebro, atônito, pensa no que fazer. Um cérebro tão convicto quanto inocente se sentiria enojado com um revés injusto e manipulado, mas este cérebro sabe fazer contas, pois calcula o conteúdo de seus cofres e entende que a fonte da sua derrota foi repúdio por todos aqueles cérebros enojados de fato. Este cérebro, inteligente (pois ele é, sem dúvida), entende que em seu futuro próximo as portas em seu país somente se fecham ao seu redor, sobretudo a de uma cela. Somente uma saída continua aberta, mas por pouco tempo: o aeroporto. Como inteligência é a capacidade de agir para manter portas abertas, este cérebro, tão inteligente, agora é fugitivo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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