Uma vez, uma revista perguntou a Rubem Braga quais eram as dez coisas que faziam a vida valer a pena. O gigante da crônica não se escondeu e destilou belezas. Uma delas era tão específica que nunca esqueci: "Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para seu lado e, de repente, dar um chute perfeito e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro". Pois bem, ontem aconteceu comigo. Bem no meio da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, tem um campinho de futebol de salão, de cimento gasto. Passo por ali regularmente, e paro sempre para tomar um café ali em frente. Enquanto espero, na calçada, admiro o jogo barulhento e viril. "Eles trabalham por aqui e jogam futebol na hora da folga", me diz o cara que faz o café. Os jogadores dobram as barras das calças e fazem a divisão clássica no futebol brasileiro, os de camisa versus os sem camisa. A maioria está de tênis, um usa sapatos e dois jogam descalços mesmo. As divididas são ríspidas e sobram botinadas. A comemoração de um gol não tem dancinha. Quem sofre falta não reclama e volta logo à guerra. Outro dia, eu passei por ali apressado, sem tempo para o café, carregando mochila, computador, livros e um casaco inútil. Ouvi um chute fortíssimo, olhei por reflexo, e vi quando a bola bateu no joelho do defensor e espirrou para fora do campo, por cima das grades, passou por entre as folhagens das árvores, quicou, rolou por cima do gramado, atravessou a rua, subiu na calçada, bateu na parede do café e parou, bem do meu lado. Os jogadores gritaram e pediram a bola de volta. Congelei e entendi a importância do momento. O mais sensato seria levá-la embaixo do braço até o campinho, onde abriria a portinhola e daria nas mãos de alguém. Um chute parecia impossível: havia dezenas de fios nos postes da calçada, duas árvores grandes e uma grade alta no caminho. Para piorar, havia testemunhas. Duas vendedoras da loja ao lado que fumavam. Uma senhora e sua cuidadora. O cara do café. E os jogadores impacientes. Eu joguei futebol numa rua sem saída todas as tardes da minha infância, mas nunca melhorei muito. Evitávamos chutar forte no golzinho de tijolos, para que a bola não caísse no quintal da vizinha sádica, que se divertia em furá-las antes de devolver. Décadas depois, passava horas no gol a gol com meu filho no quintal. A experiência não me credenciava para a ousadia. Por alguma razão proustiana ou freudiana, pensei em Rubem Braga. E decidi: ia tentar o chute impossível. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Respirei, joguei a bola para cima e, enfiei o pé, como um goleiro num lançamento longo. O chute saiu perfeito: a bola passou abaixo dos fios da calçada, acima das árvores da praça e bem acima da grade do campo. Mas foi melhor que isso. Ao cair, verticalmente, um jogador sem camisa matou a bola no peito, e controlou no pé. Depois, apontou para mim e fez um gesto de aplauso. Meus vizinhos de calçada murmuraram em apoio. Saí de lá transcendido. A cena é prosaica, eu sei. Um sessentão dá um chute numa bola e ganha o reconhecimento de desconhecidos. Não mudou a vida de ninguém. Mas me trouxe um sorriso que durou horas. E um pensamento que reforça tudo o que tenho lido, vivido, estudado e escrito: o espaço público, mesmo com todos os nossos conflitos, é onde acontecem os encontros. É a cola da cidade. A cada saída, há mil possibilidades, que podem ou não se realizar. A cada vez que alguém fica em casa com medo de caminhar pela rua, as mil possibilidades desaparecem. Me dou conta de que cronistas que amam as ruas podem até ser uma inspiração urbanística, para pensar numa cidade onde alguém sai de casa e encontra transcendência nas miudezas cotidianas. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
O chute perfeito
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