O Brasil que insiste em n�o dar certo

O Brasil que insiste em n�o dar certo

Nenhuma sociedade na história se desenvolveu sem que tenha havido um projeto nacional com altos níveis de inclusão social e política. Mas, apesar de seu imenso potencial, o Brasil tem um retrospecto fraco no avanço de tais medidas. E, não obstante todas as lições que já deveríamos ter aprendido, os ecos do passado parecem novamente definir nosso futuro. Cabe lembrar que chegamos ao limiar do século 20 com recursos suficientes para realizar um dos mais acelerados processos de industrialização do período. Que isso tenha sido inicialmente coordenado por um Estado autoritário reflete bem que nossas mazelas não se restringem à esfera econômica.Ainda assim, no contexto do pós-Guerra, parecíamos finalmente capazes de redefinir nossos rumos. O país experimentaria, pelos 20 anos seguintes, um dos períodos mais promissores de sua história, especialmente no sentido de conseguir crescer e se industrializar de forma acelerada, ao mesmo tempo em que mantinha e aprofundava sua institucionalidade democrática. Essa rica experiência, contudo, não seria mantida. E, no golpe militar de 1964, as elites dirigentes do país reiterariam sua opção por destruir a democracia a fim de impedir que reformas estruturais mais amplas e capazes de promover os tão necessários níveis de inclusão fossem implementadas. Mas, após uma longa e controlada transição política e os ajustes macroeconômicos dos anos 1990, o século 21 parecia apontar para algo finalmente novo. O país mantinha a estabilidade monetária, mas também agia de forma coordenada na redução da pobreza absoluta. O crescimento econômico foi retomado no final da primeira década, ao passo que programas sociais ampliavam a classe média baixa, enfim minimamente integrada ao mercado consumidor interno. Infelizmente, novamente ecoando o passado, tais dinâmicas não teriam continuidade.A crise econômica de meados da segunda década do século acabaria não só por reverter muitos dos ganhos socioeconômicos dos anos anteriores, mas também por colocar em xeque a própria lógica da Nova República. Até então, o sistema político funcionava com base em disputas acirradas entre coalizões políticas opostas. Não havia, contudo, forças de expressão que questionassem a própria validade do regime. É exatamente essa última situação que parece nos definir nos dias de hoje. Temos atualmente uma quase irremediável polarização entre quem defende a necessidade da manutenção da institucionalidade democrática e os que a questionam — a menos, é claro, que isso os beneficie eleitoralmente. Agravando tudo, diferentemente de meados do século passado, existe uma forte adesão das camadas populares à narrativa de que atores envolvidos na tentativa de golpe de Estado de janeiro de 2023 são, na verdade, vítimas de uma grande armação do sistema e de que candidatos alinhados a tais atores (muitas vezes por laços de família) seriam os verdadeiros defensores da nação, não obstante seus históricos política e moralmente questionáveis.Que tenhamos chegado a tal cenário com base em uma engenhosa articulação de falsas informações e na deslegitimação do sistema político e das políticas sociais de inclusão não desfaz a gravidade do quadro. Vivenciamos, pois, um alto risco de um novo retrocesso político e social. Com essa repetição do passado, é muito difícil que consigamos avançar um dia rumo a uma sociedade mais desenvolvida, autônoma e justa. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.