O Brasil de sempre nas Na��es Unidas

O Brasil de sempre nas Na��es Unidas

A cada ano, o primeiro dia da Assembleia Geral da ONU é um momento de alta retórica política. Ali, ao apresentar a sua agenda internacional, cada país projeta a imagem a que aspira. Ao abrir a sessão deste ano, na terça (22), o presidente Lula reiterou compromissos que de há muito definem a personalidade internacional do Brasil; também enfatizou a agenda social, marca registrada do PT, e falou de prementes temas conjunturais. Permanentes e longevas são a defesa da paz e de soluções negociadas para desavenças internacionais; a rejeição a soluções unilaterais; a aposta no multilateralismo. Constante também é a demanda de reforma da ONU, em especial de seu Conselho de Segurança —que congela a hierarquia de poder estabelecida no final da 2ª Guerra Mundial e concede, por meio do direito de veto, o "privilégio da insensatez", na forte expressão do brasileiro, às grandes potências que ali têm assento permanente.Urgência e indignação marcaram o discurso do presidente, uma e outra justificadas pela proliferação de conflitos armados e pela inoperância do órgão máximo das Nações Unidas responsável por promover a paz. Ele também denunciou a paralisia da Organização Mundial do Comércio e o desmonte da Organização Mundial da Saúde. Da tradição do PT vem a ênfase no combate à fome e à desigualdade no mundo, na defesa da taxação dos super-ricos e na reiteração da agenda climática, deixada de lado em fóruns multilaterais. Das ameaças presentes nasce a referência ao combate ao crime organizado, à regulação da esfera digital e à defesa da democracia.A fala de Lula não se resumiu às denúncias do descalabro internacional. Para cada problema, ele citou alguma contribuição positiva do Brasil, tanto por meio de iniciativas domésticas como por soluções que ultrapassam fronteiras. Dessa forma, alicerçou a permanente defesa da soberania nacional em comprovadas capacidades de lidar com as ameaças internas e de contribuir para encarar os desafios mundiais. A menos de duas semanas da sucessão, o discurso do presidente Lula —devidamente picotado— será uma peça de campanha. Ainda assim seria um equívoco tomá-lo apenas como tal. Seguido pela fala arrogante e belicosa de Donald Trump, o mandatário brasileiro lhe fez perfeito contraponto. Nesse sentido, a dele não foi manifestação isolada. Soma-se a um movimento mais amplo de reorganização do sistema internacional, diante da decadência da hegemonia dos EUA, abrindo novos desafios para países de poder médio como o Brasil.Não por acaso, o presidente Lula chegou a Nova York a bordo da iniciativa P4M-Partners for Multilateralism (Parceiros pelo Multilateralismo), cuja proposta, publicada pelo diário britânico Financial Times no dia 20, reúne o mandatário brasileiro, o primeiro-ministro do Canadá, o presidente do Conselho Europeu e o presidente do Quênia. De sua parte, o líder canadense negocia que seu país se torne membro associado da União Europeia. Navegar neste novo mundo de oportunidades e perigos requer do país uma concepção do seu lugar no mundo e o respeito por nossa robusta tradição diplomática. Tudo que passa a anos-luz do universo maniqueísta onde se move o bolsonarismo. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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