O Brasil aprendeu a rejeitar e a temer em dobro

O Brasil aprendeu a rejeitar e a temer em dobro

Em tempos de incertezas eleitorais, as pesquisas de intenção de voto mostram uma certeza que se consolida ao revelar um resultado comum: a impressionantemente forte rejeição dos principais candidatos presidenciais. Levantamento da Quaest, divulgado em 14 de setembro, apresenta 55% de rejeição para Flávio Bolsonaro (PL) e 55% para o presidente Lula (PT). Não é novidade a resistência e desconfiança do eleitor brasileiro a partidos e candidaturas presidenciais. O sentimento antipartidário, bem como a rejeição a candidatos, vem muito antes da transição política para o regime civil e a Constituição de 1988. O PT e seus postulantes presidenciais, desde sua entrada na competição, em 1989, enfrentaram o desafio de combater a resistência do eleitor. Entrementes, a legenda também apresenta na sua trajetória uma expressiva identificação com o eleitorado. Chama a atenção que, tanto na eleição disruptiva de 2018 quanto na eleição de 2022, a rejeição aos dois principais candidatos presidenciais não tenha sido diagnosticada nas pesquisas de intenção de voto com percentuais semelhantes e elevados. Esta é a novidade da eleição presidencial deste ano: a forte e semelhante rejeição nas duas principais candidaturas. O país aprendeu a rejeitar e temer em dose dupla. A obra "Hate in the Homeland: The New Global Far Right", da professora Cynthia Miller-Idriss (American University), lança luz sobre os mecanismos de mobilização política de sentimentos de traição, raiva, medo, vergonha e desejo de pertencimento que alimentam a orientação da decisão do voto. Em tempos de insegurança, esses sentimentos tornam-se elementos centrais das campanhas mundo afora, inclusive no Brasil O que se destaca é a perda do monopólio da forte rejeição: o "empate na antipatia". Rejeitar radicalmente um partido ou candidato e, por essa razão, buscar outra opção é diferente de manifestar rejeição, na mesma intensidade, a outro campo no pleito presidencial. Esse fenômeno não parece ser mero acidente de contexto de uma eleição, sobretudo quando confrontado com os resultados de uma pesquisa acadêmica a ser publicada sob nossa autoria e de João Cardoso L. Camargos, "As Metamorfoses do Antipetismo - Um Partidarismo Negativo Estável?", que reconstrói duas décadas de rejeição afetiva a partidos brasileiros a partir do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb). Em 2002, apenas 11% do eleitorado expressava rejeição ao PT, oscilando até 2014. O ponto de inflexão foi 2018, quando o índice disparou para 34%, recuando ligeiramente em 2022. O antipetismo, sem dúvida, cresceu. É também relevante destacar que a rejeição específica ao partido tende a estar nos mesmos patamares percentuais de rejeição a suas candidaturas nos anos de eleição presidencial da Nova República (Datafolha). A pesquisa da Atlas/Bloomberg de agosto último traz alguma luz para a compreensão do sentimento que produz a alta rejeição nos dois principais candidatos apontados nas pesquisas. Quando o instituto pergunta ao entrevistado "o que mais teme", o levantamento aponta outro fenômeno espelhado na rejeição, o sentimento de medo: 46,4% dos entrevistados dizem temer mais a reeleição de Lula, e 45,5% mais a eleição de Flávio Bolsonaro. A rejeição similar entre os dois candidatos parece estar sendo mobilizada por um sentimento de medo de intensidade equivalente em relação às duas principais candidaturas em disputa. A forte rejeição a partidos e/ou candidaturas indica ter sido impulsionada por afetos negativos. Eles funcionam como um prisma pelo qual parte da sociedade percebe toda a política, canalizando frustrações, expectativas e temores. Se o antipetismo ensinou alguma coisa à política brasileira, foi que uma identidade construída sobre o "contra quem" pode ser tão duradoura e tão decisiva nas urnas quanto qualquer identidade construída sobre o "a favor de quem". A diferença, neste 2026, é que esse mecanismo de forte rejeição já não pertence a um só lado. E o crescimento de um eleitorado que teme os dois polos pode ser o dado mais importante para entender não somente a eleição deste ano, mas as que vierem depois dela. Uma governabilidade ainda mais difícil ao próximo presidente eleito? Uma democracia sob mais uma ameaça? TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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