O Brasil abre caminhos para a prosperidade?

O Brasil abre caminhos para a prosperidade?

Abrir uma empresa pode levar alguém às estatísticas do empreendedorismo. Construir um negócio capaz de pagar as contas, remunerar dignamente quem trabalha e planejar o futuro é outra história. Entre essas situações há uma distância que o discurso de valorização do empreendedor nem sempre reconhece. Uma empreendedora pode ter um bom produto, clientes e dedicação e, ainda assim, não conseguir financiar uma encomenda porque precisa comprar insumos antes de receber. Recomendar mais iniciativa é ignorar o problema: existe capacidade de produzir, mas faltam condições para transformá-la em estabilidade e riqueza. O empreendedorismo é também uma questão de política econômica. Crédito, condições de contratação, infraestrutura e tecnologia influenciam quais negócios crescem. Quando essas condições são desiguais, o esforço também produz resultados desiguais. O Brasil avançou ao reconhecer o trabalho por conta própria. Em dezembro de 2008, o presidente Lula sancionou a lei que criou o MEI (Microempreendedor Individual), implementado em 2009. A política simplificou a formalização e abriu caminho para a inclusão previdenciária. Às vésperas dos 18 anos da lei, precisamos perguntar o que acontece depois da formalização. O CNPJ registra uma atividade, mas não garante demanda, capital de giro ou investimento. O próximo capítulo dessa política deve se concentrar na capacidade de prosperar. Quem começa precisa de instrumentos distintos dos de uma empresa que não consegue financiar a expansão. Nem todo empreendedor quer construir uma grande empresa: alguns desejam crescer e contratar; outros buscam renda estável e autonomia. Para os negócios negros, esse debate exige enfrentar o racismo como questão econômica. Quem recebe crédito? Quais redes aproximam fornecedores dos grandes compradores? Quem tem patrimônio para oferecer como garantia ou consegue esperar meses pelo retorno de um investimento? Critérios aparentemente iguais podem afetar de forma diferente pessoas que chegaram ao mercado em condições desiguais. Sem examinar essas barreiras, corremos o risco de chamar de falta de preparo aquilo que também é falta de acesso. O empreendedorismo negro é diverso: há negócios que nascem da urgência da sobrevivência e outros de oportunidades, vocação ou desejo de autonomia. Há inovação na gastronomia, moda, tecnologia, música e em serviços que atendem necessidades pouco contempladas. Enxergar essas iniciativas apenas pela vulnerabilidade impede reconhecer e financiar seu potencial. Quando falo em economia preta, proponho olhar para quem produz valor e para quem se apropria dos resultados. Quanto da riqueza gerada por nossos negócios permanece com quem a produz? Quanto vira remuneração, investimento e patrimônio? Quanto circula nos territórios e amplia as possibilidades da geração seguinte? Essa perspectiva exige coordenação: a formação deve dialogar com oportunidades reais; o crédito precisa respeitar o ciclo dos negócios; as compras públicas devem ser acessíveis às pequenas empresas; e a digitalização deve ampliar a capacidade de vender e gerir, considerando custos e dependências. As empresas privadas também precisam rever exigências de entrada, prazos de pagamento e contratos. Uma oportunidade só gera desenvolvimento quando o fornecedor pode atendê-la sem comprometer sua sobrevivência. Também precisamos mudar a avaliação das políticas públicas. Além de contar empresas formalizadas, devemos acompanhar renda, sobrevivência dos negócios, acesso a mercados e capacidade de investimento, verificando se as desigualdades raciais e de gênero diminuem. E perguntar se quem empreende consegue viver melhor: formar uma reserva, atravessar períodos de vendas menores, adoecer sem perder toda a renda, descansar e planejar o futuro. O MEI é uma conquista, mas seu futuro exige políticas duradouras e disposição para corrigir mecanismos que concentram oportunidades. O Brasil precisa valorizar quem empreende também quando essa pessoa deixa de ser uma história inspiradora e passa a reivindicar crédito, contratos justos e proteção. Abrir um negócio precisa poder ser o início de uma trajetória de prosperidade, sem que chegar lá dependa de uma capacidade extraordinária de suportar dificuldades. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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