Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, é mais perigoso para a democracia do que o pai, Jair. Não por ser mais radical, mas por parecer mais moderado. O pai tentou dar um golpe seguindo uma cartilha ultrapassada, um tanto demodê, e fracassou. Jair é impulsivo, errático e dado ao confronto. Flávio parece mais disciplinado, mais integrado ao sistema partidário e mais capaz de negociar com aqueles que o pai preferia ameaçar. Em determinados contextos, contudo, a moderação pode tornar mais eficaz o radicalismo dos objetivos. Não há entre eles diferença de convicções —basta olhar a trajetória do 01—, mas uma diferença de método: confronto, no caso do pai; acomodação, no caso do filho. Diferentemente de 2018, em 2026 estão dadas as condições para que Flávio possa subverter a democracia por dentro. Em 2018, muito se discutiu sobre a capacidade de resiliência da democracia diante de um populista autoritário que chegava à Presidência da República. Para uns, a democracia brasileira corria, sim, um risco; para outros, esse risco era mínimo ou mesmo inexistente. O argumento do segundo grupo se apoiava sobretudo no desenho institucional brasileiro e em seus mecanismos de freios e contrapesos: um sistema consensual, marcado pela dispersão do poder e por múltiplos pontos de veto. A fragmentação partidária, a existência de legendas disciplinadas e centralizadas no Legislativo, um Congresso fortalecido, o federalismo, um Judiciário constitucionalmente forte e independente e órgãos de controle relativamente autônomos constituíam obstáculos que dificultavam significativamente um "executive takeover" por parte de Jair Bolsonaro. Obstáculos institucionais, contudo, não são garantia da sobrevivência da democracia. Se o Legislativo pode funcionar como contrapoder, nada garante que um Congresso Nacional conservador não possa se tornar aliado de um eventual processo de autocratização. Mais significativo, na conjuntura de 2026 —e diferentemente da de 2018— é que não apenas o Supremo Tribunal Federal (STF) está enfraquecido por uma crise de legitimidade sem precedentes como também quatro ministros podem ser nomeados pelo próximo presidente. Há, enfim, outra diferença em relação a 2018: um segundo governo Donald Trump elevou a interferência na América Latina a um novo patamar e está determinado a influenciar as eleições para favorecer a vitória de candidatos da extrema direita em todo o continente. Ao estudar os autoritarismos competitivos, Steven Levitsky e Lucan Way ("Competitive Authoritarianism: Hybrid Regimes After the Cold War") mostraram que, após o fim da Guerra Fria, a influência ocidental aumentava os custos da autocratização. O que se vê hoje é uma inversão desse mecanismo: a principal potência hemisférica, sob o comando de Trump e Marco Rubio, deixou de elevar os custos da erosão democrática e passou até mesmo a recompensá-la —desde que praticada por governos ideologicamente alinhados a Washington. O cenário mais perigoso talvez não seja o de tanques nas ruas, mas o de uma sucessão de decisões formalmente legais, aprovadas por maiorias parlamentares conservadoras, respaldadas pelos EUA e justificadas como correções dos "abusos" de um STF agora "moralizado", sem Alexandre de Moraes e com novos ministros bolsonaristas, além de André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Em 2022, a democracia brasileira sobreviveu a Jair, que anunciava quase diariamente sua disposição de golpeá-la. Talvez o perigo maior venha de Flávio, que pode ter aprendido que, para esvaziar uma democracia, é melhor não declarar guerra contra ela. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
O Bolsonaro mais perigoso pode ser o mais moderado
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