O body expiat�rio da Xuxa

O body expiat�rio da Xuxa

Já estou de bode da polêmica do body da Xuxa. Mas a fogueira continua acesa, então aqui vai mais lenha. É a velha nova história: a santa inquisição caçando pecadores. Alguém precisa ser o body expiatório da vez para carregar os pecados de quem caça, enquanto o resto do rebanho emana pureza. Xuxa tem 63 anos: primeiro pecado. É rica e independente: segundo. É (ao que tudo indica, bem-)casada com um homem mais jovem: terceiro. Usou um body cavado no show: quarto. Tem uma bunda 60+ de invejar: pecado dobrado, quinto e sexto. Declarou que sexo e tesão fazem parte da rotina com Junno Andrade: sétimo pecado, este capital. O Reclame Aqui da moral lotou de queixas. Uma legião de guardiões da virilha alheia, todos preocupadíssimos com a decência e os bons costumes, atacou horrorizada o figurino de Xuxa da turnê "O Último Voo da Nave". Vamos ao osso do escândalo: a virilha. Que lugar é esse, afinal, que precisa de tanta polícia? Não é nem o órgão do pecado; é apenas sua fronteira, o litoral que avisa que, passando dali, começa o santuário. Ou, em termos menos poéticos, é a região inguinal, a dobra onde o tronco decide virar perna, o mesmo terreno onde a depilação já me tirou lágrimas. Fica entre a perna, que serve para ir, e o tronco, que serve para ficar. E foi justamente ali, na dobradiça da indecisão anatômica, que o pudor público resolveu instalar sua ira. Os puritanos preferem policiar o umbral a discutir o cômodo: exige menos argumento e ainda dá pra simular inocência. A rainha teve a "ousadia" de usar o mesmo figurino de sempre, que deixava os baixinhos enfeitiçados — pela nave, naturalmente. Os adultinhos de hoje, porém, esperavam vê-la no palco vestida de Madre Teresa. Sentiram-se autorizados a determinar o limite da liberdade de uma mulher depois dos 60 e resolveram fiscalizar decotes e cavas em nome do bom-mocismo, causa aparentemente mais urgente do que qualquer pauta que essa mesma gente jura defender. Não é exatamente a carne que incomoda. Carne tem em toda praia, em todo Carnaval, em toda tela, em toda revista —e em toda mente. O que incomoda é o corpo de uma mulher madura que continua a desejar e a ser desejada. Suscitaram eventual "erro de modelagem", mas o veredito do tribunal dos bons costumes foi o mesmo, nem acidente de costura escapa da fogueira. Não importa se foi calculado ou acidental, o pecado é o corpo aparecendo, ponto. A inquisição não distingue dolo de culpa. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Cada um mostra o que quiser e assiste ao que quiser. Eu não fui ao show. Na época dos cinco patinhos, meu canal estava ligado no Agente 86. Mas vi muitas imagens: pessoas felizes, cantando, algumas até chorando, encantadas com o carisma da Xuxa. Veja a ironia: cresci vendo um agente espionar inimigos e telefonar para o QG pelo sapato; hoje, o país inteiro virou agente secreto da moral, que denuncia usando megafone para ser aplaudido pela própria indignação. A acusada não pediu desculpas nem prometeu recato. Se retratar seria reconhecer a autoridade dessa jurisprudência moral que define o pecado e impõe a penitência. Afinal, quantos centímetros de pano na cava tornam uma mulher "respeitável"? Xuxa não embarcou nessa nave. Decolou na outra, pilotada por ela mesma, com a virilha e a dignidade intactas. Os tiranos da virtude continuam em terra firme, preservando com zelo a própria banalidade. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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