The Economist O Ueno Bank está por toda parte no Paraguai. O banco patrocina estádios, festivais de música, a seleção nacional de futebol, um bar e o principal piloto de automobilismo do país. Seus cartões de crédito oferecem grandes valores de cashback em supermercados. Embora tenha recebido uma licença bancária plena apenas em 2023, a fintech atende hoje 2,9 milhões de paraguaios, quase dois terços da população adulta. Em feiras de artesanato organizadas em parceria com a primeira-dama do país, promotoras elegantes do Ueno, vestidas com calças jeans justas, distribuem leitores de cartão a artesãos indígenas. Para muitos paraguaios, acostumados a guardar dinheiro debaixo do colchão, o Ueno ajudou a abrir a primeira conta bancária. Suas agências ofereciam telas sensíveis ao toque, cafés cremosos e sofás confortáveis, em forte contraste com os horários pouco convenientes, a decoração sóbria, as exigências de depósitos elevados e os seguranças mal-humorados dos concorrentes. Frequentemente comparado ao Monzo ou ao Revolut, o Ueno esperava alcançar uma avaliação de US$ 1 bilhão (R$ 5,5 bilhões) e se tornar o primeiro unicórnio do Paraguai —como são chamadas as empresas de tecnologia avaliadas em pelo menos esse valor. Manifestantes protestam perto do Congresso paraguaio após uma sessão extraordináriano Congresso para debater a renúncia do presidente Santiago Peña e avaliar a abertura de um processo de impeachment contra ele - Cesar Olmedo - 05.nov.26/Reuters Isso até o dia três de novembro, quando o BCP (Banco Central do Paraguai), responsável pela política monetária e pela regulação do sistema bancário, assumiu o controle do Ueno e iniciou formalmente o processo de liquidação da instituição. A polícia prendeu o presidente-executivo do banco, Miguel Vázquez, e o levou a um presídio de segurança máxima. Outros executivos foram algemados e tiveram a cabeça coberta por capuzes. Eles respondem a acusações que incluem quebra de confiança, irregularidades contábeis e tentativa de fraude. Clientes desesperados, impedidos de acessar suas economias, precisaram ser contidos pela polícia nas agências. O presidente do BCP, Carlos Carvallo, que havia comandado o próprio Ueno até três anos atrás, renunciou a pedido do presidente paraguaio, Santiago Peña, que também tomou a mesma atitude, renunciando ao cargo mais alto do poder executivo. Manifestantes marcharam em direção ao palácio presidencial. A oposição afirmou que preparava um processo de impeachment contra Peña, que até o ano passado detinha ações da Ueno Holding, empresa relacionada ao banco. Seu vice-presidente, Pedro Alliana, também enfrenta ameaças de impeachment. Em uma mensagem em vídeo, Peña afirmou que 98% dos clientes do Ueno receberiam seu dinheiro de volta por meio do seguro de depósitos e que os responsáveis pela crise seriam punidos. "O sistema financeiro é sólido", disse. Por trás do colapso do Ueno está uma sequência de acontecimentos que mancharam a imagem jovem e moderna da instituição. A participação do banco nos negócios com o governo cresceu significativamente durante a gestão de Peña. Cerca de US$ 850 milhões (R$ 4,7 bilhões) em recursos públicos estão depositados atualmente no Ueno, incluindo 10% dos fundos de aposentadoria do setor público do país. A Itti, empresa do mesmo grupo, administra grandes volumes de dados pessoais e sensíveis dos cidadãos depois de conquistar mais de uma dezena de contratos com o Estado. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões O presidente tem "responsabilidade direta" pela crise, afirma Rafael Filizzola, senador de oposição de centro-esquerda. "Trata-se de uma conspiração criminosa para usar recursos públicos em empresas privadas ligadas a Peña." O presidente nega qualquer irregularidade. Os empréstimos concedidos pelo próprio Ueno, com critérios considerados pouco rigorosos, também estão sob investigação. No mês passado, veio à tona que o banco havia liberado cerca de US$ 150 milhões (R$ 825 milhões) para pequenas empresas ligadas a seus acionistas e funcionários, aparentemente violando regras regulatórias e colocando em risco seu próprio balanço patrimonial. Senadores aliados do ex-presidente Horacio Cartes —cuja família é dona de outro banco e que recentemente rompeu relações com Peña— passaram a intensificar a pressão. Com o aumento das notícias negativas e o temor dos investidores, os títulos de dívida do Ueno no valor de US$ 350 milhões (R$ 1,93 bilhão), com vencimento em 2031 e emitidos em março, perderam cerca de 12% de seu valor. Na semana passada, a empresa anunciou uma recapitalização de US$ 100 milhões (R$ 5,5 bilhões). Foi pouco e tarde demais. Autoridades do BCP afirmaram na terça-feira (3) que o índice de solvência do Ueno havia caído para menos da metade do mínimo exigido e que os investigadores tinham descoberto outras irregularidades. "A incerteza predomina", afirma Esteban Caballero, analista político. O governista Partido Colorado controla as duas Casas do Congresso, mas está dividido entre os apoiadores do presidente e os de Cartes, seu antigo padrinho político. Um fundo de reserva bancária foi autorizado a reembolsar os clientes do Ueno em até US$ 38 mil (R$ 209 mil) no prazo de 15 dias. Parlamentares votaram para acelerar o processo. Para valores acima desse limite, o BCP oferecerá apenas "a maior proteção possível". Quanto ao futuro do Ueno, circulou recentemente a informação de que outra instituição financeira estaria negociando sua aquisição. Alguns temem que as informações biométricas coletadas pelo banco de seus clientes possam ser vendidas a quem oferecer mais. "São dados sensíveis", afirma Maricarmen Sequera, da TEDIC, organização não governamental que atua na defesa dos direitos digitais. Outros temem que o escândalo comprometa a imagem da economia mais promissora da América do Sul entre os países que não dependem do petróleo, que cresceu 6,6% em 2025. Diferentemente da crise de 1995, que levou à quebra de metade dos bancos paraguaios, o sistema financeiro como um todo está seguro, afirma Fernando Arriola, ex-banqueiro de Wall Street e diretor da câmara paraguaia de fintechs. As empresas de médio porte que mantinham seus recursos no Ueno, porém, serão prejudicadas. "Isso terá impacto no mercado", acrescenta Arriola. Ele responsabiliza os órgãos reguladores por não terem agido a tempo, o Ueno por conceder empréstimos generosos demais a empresas ligadas a seus dirigentes e o presidente por não ter evitado suspeitas de favorecimento. Peña costuma chamar o Paraguai de "gigante adormecido". Se a lamentável história do Ueno servir de indicação, porém, esse colosso é um castelo de cartas.
O banco digital que se tornou s�mbolo de ostenta��o no Paraguai entrou em colapso
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