Não tenho bola de cristal. Nenhuma funciona, salvo nas mãos de mágicos e ilusionistas. Retrovisores são mais úteis. O primeiro em automóvel é atribuído a Ray Harroun, vencedor das 500 Milhas de 1911 com um espelho preso ao seu Marmon Wasp. Virou indispensável —embora traga no vidro a advertência de que a imagem é distorcida. É com essa cautela que olho para as pesquisas que registram a subida de Augusto Cury, escritor de autoajuda e candidato à Presidência pelo Avante. O retrovisor eleitoral está cheio de azarões e terceiras vias. Em 1950, Cristiano Machado era o candidato oficial do PSD. Quando Getúlio Vargas se mostrou competitivo, caciques do PSD debandaram. Getúlio venceu e Cristiano virou verbo: "cristianizar" um candidato é deixá-lo no papel enquanto seus apoios buscam alguém com chance real.Jânio Quadros, dez anos depois, empunhava a vassoura contra a velha política, mas já governara São Paulo e tinha a UDN. Collor saiu de um partido minúsculo, em 1989, e ganhou ao deixar de ser terceira via para encarnar o polo anti-Lula. Jair Bolsonaro repetiu a fórmula em 2018: era azarão partidário, nunca ideológico. Havia um enorme eleitorado antipetista à procura de candidato, e ele ocupou a vaga. Talvez interessem mais a Cury os que subiram e caíram. Ciro Gomes disparou em 2002, ameaçou José Serra e parecia capaz de superar Lula no segundo turno. Quando passou a ameaçar a vaga, levou uma raquetada tucana que, somada a erros próprios, o deixou longe do segundo turno. Hoje disputa o governo do Ceará numa aliança com o PL que o aproximou do bolsonarismo e dividiu a família Bolsonaro. Marina Silva viveu roteiro parecido em 2014. Empatou com Dilma Rousseff e parecia capaz de vencê-la. A campanha petista tratou de desconstruí-la. Marina terminou em terceiro. Hoje, reconciliada com Lula, é sua ex-ministra e concorre ao Senado por São Paulo com apoio petista. A regra é velha: a terceira via só vence quando deixa de ser terceira. Por isso, vale observar Gilberto Kassab, um dos políticos mais sagazes. Enquanto boa parte do centro preferiu não ter candidato, ele lançou Ronaldo Caiado, tornou-se seu vice e passou a afirmar que o PSD não integra o centrão. Recusa até o rótulo de terceira via —chama a chapa de melhor via. Se funcionar, terá criado um polo. Se não, conhece os caminhos de volta.E Cury? Pode desidratar quando começar o fogo cerrado e o voto útil convocar seus eleitores. Pode sobreviver e virar fiel da balança no segundo turno. Ou ser o "dark horse" de verdade, o cavalo em que quase ninguém apostava e que, de repente, disputa a chegada. Minha bola de cristal não ajuda. Há, porém, um ponto em que ela ganha nitidez. Seja quem for o próximo presidente, terá de negociar com um Congresso em que centrão e MDB dispõem de bancadas, orçamento, emendas e governos estaduais. Nosso presidencialismo de coalizão ganhou traços de semiparlamentarismo: o eleitor escolhe o Planalto, mas boa parte das condições de governar se decide no Congresso.Cury pode cair, arbitrar ou vencer. Lula e Flávio Bolsonaro podem chegar ao segundo turno —ou descobrir que o retrovisor não mostrava a ultrapassagem. Na pule presidencial, não arrisco vencedor. No placê, há uma barbada: o centrão. Não vai cruzar o disco em primeiro, mas estará na fotografia da chegada e, no dia seguinte, outra vez, com a faca e o queijo na mão. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
O azar�o e a barbada
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