O apelo da dignidade

O apelo da dignidade

Na fatigante expectativa do segundo turno, especialistas insistem em que problemas nacionais sejam postos em debate entre os dois candidatos e não se confundam campanhas com exposições biográficas. Todo mundo está cansado de saber que Lula, autodeclarado mais sindicalista que de esquerda, representa estabilidade democrática, ideias de povo próspero e soberano. Por vias populistas, sempre "entregou" benefícios sociais. Mas até os mal-informados também estão cansados de saber que Flávio Bolsonaro tem mais folha corrida do que biografia publicável em 30 anos de vida parlamentar. Supunha-se que um político da ultradireita em ascensão tivesse algo de pertinente a dizer sobre ajuste fiscal ou sobre um benefício qualquer a "entregar", como senha de trânsito no mercado eleitoral. O que ele diz numa hora, desdiz na outra. É um "flatus" ambulante. De concreto, o projeto de tirar o pai da cadeia. Embora possa facilmente entregar o país. Há cansaço, sim, "fadiga de material". Mas esse "stress corrosion" (jargão técnico de engenheiro para queda estrutural de ponte ou viaduto) também acomete o arcabouço das explicações de macroestrutura. Não que estejam erradas, são apenas abstratas demais, próprias ao entendimento intelectual, porém deslocadas em tempo e espaço para a média compreensão imediata. E o problema imediato dos debates é que a massa eleitoral parece não querer saber de coisa alguma. A falha no primeiro turno não foi falta de debates, mas demonstração da falta de vontade de debater. Agito é o que balança as redes. Não apenas os 33 milhões que deixaram de votar, mas principalmente aqueles que, polarizados por uma "mudança" engana-vista, aderem à lógica televisiva do Big Brother. Por pouco caso que disso façam as explicações por frações de classes de consumo, o reality show oferece um simulacro de parte importante do processo eleitoral. No BBB não se trata de saber, mas de polarizar afetivamente. É modelo de um democratismo tão radical que favorece o homem sem qualidades. Ganha o pior, ou seja, aquele que, exatamente por falta de méritos, catalisa por plebiscito a simpatia majoritária. Criticá-lo desperta a emoção reversa da autopiedade: é como dizer "coitadinho de mim mesmo", tão semelhante. O rebaixamento nas redes sociais parece hoje prioritário no pleito político. Parlamentares da caixa de gargalhadas, com milhões de votos, são epifenômenos dessa aberração. Mas o pano de fundo conceitual permanece o do reality show, regido pelo ditado latino "qui vult decipi, decipiatur": quem quer ser enganado, seja. No espelho eletrônico, o pobre empreendedor de si mesmo quer se ver como rico, a vítima como carrasco vingador. Redes, onde versões precedem fatos, são as ruas movimentadas dessa megalópole-BB chamada internet. No Rio, as semimortas pertencem a neopentecostais, traficantes e milicianos. Debater o quê, com quem? Daí repercutir como contra-hegemonia nas redes o eco das ruas ainda vivas: "fascismo não se discute, se destrói", pois "é difícil defender, só com palavras, a vida" (João Cabral). Cabe mesmo a cada brasileiro sentir no peito o apelo da sua dignidade. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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