Ao sair da Itália, com 13 anos, Nydia Licia já havia assistido a mais de 30 óperas, influenciada pela vida cultural intensa da família judaica —o pai, médico e professor universitário, e a mãe, pianista formada em ciências musicais. Era uma vida preenchida pela arte. Com o pai, ela aprendeu a ler poesia. Da mãe, herdou o amor à música. O documentário inédito "Nydia Licia - O Espetáculo Continua", produzido pela TV Cultura, usa a voz da própria atriz para contar essa e outras histórias da pioneira dos palcos e da TV no Brasil. A obra estreia nesta quarta, às 22h30, para celebrar o centenário da artista, nascida em 30 de abril de 1926, em Trieste. "Estávamos no tempo do fascismo. De repente, eles perderam os empregos. Meu pai disse: vamos embora", ela relata em um depoimento sobre a decisão de fugir para o Brasil. As entrevistas da atriz, apresentadora, diretora de teatro e TV são a base do documentário de 55 minutos, com roteiro e direção de Simão Scholz. Licia conta episódios como a chegada a São Paulo, após a família escapar das garras de Benito Mussolini. "Achei o Brasil maravilhoso. Em dois meses eu estava falando português", afirma. A menina já havia estudado música e dança na Itália e no Brasil soube que Pietro Maria Bardi iria montar um museu, o Masp, Museu de Arte de São Paulo, a convite de Assis Chateaubriand. A jovem se apresentou e foi escolhida como uma das assistentes de Bardi, inicialmente no prédio dos Diários Associados, na rua 7 de Abril, no centro da capital paulista. A condição geográfica levou Licia ao teatro. A primeira sede do Masp era próxima à livraria Jaraguá, dirigida por Alfredo Mesquita, fundador de um grupo de teatro amador e, depois, criador da EAD, a Escola de Arte Dramática da USP. Ela soube que Mesquita precisava de uma moça loira, de cabelos compridos, para o papel de Laura Wingfield em "À Margem da Vida", de Tennessee Williams. Era ela. No TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, fundado por Franco Zampari no bairro do Bexiga, a atriz conviveu com Cacilda Becker, Walmor Chagas, Adolfo Celi, Cleyde Yáconis e Paulo Autran. Ela ficou no TBC até março de 1953, quando saiu com o ator Sérgio Cardoso, seu marido. Os dois foram para uma temporada na Companhia Dramática Nacional, no Rio de Janeiro. "Naquela época, o teatro ainda era um passatempo. Ainda era uma atividade paralela", diz a médica Sýlvia Cardoso Leão, filha da atriz, entrevistada no documentário. Com rico acervo de imagens e depoimentos, o filme tem o mérito de lembrar a origem do teatro profissional em São Paulo, a partir da reunião de grupos amadores no TBC, estimulados pelo patrocínio e pelas exigências do italiano Zampari. "Na hora de dormir, todo ator brasileiro rezava: que Deus nos Zampari", afirma com bom humor o crítico teatral Décio de Almeida Prado numa das entrevistas resgatadas. As artes cênicas desenvolvidas no casarão do Bexiga tinham ares europeus, com diretores como o italiano Adolfo Celi e o polonês Zbigniew Ziembinski, ambos também atores. Além da história, o documentário tem bastidores divertidos, como as lembranças de Ziembinski dormindo em cena. Em uma dessas ocasiões, Licia ficou sozinha no palco, tocando flauta, porque a soneca impediu o polonês de voltar. A movimentação no Bexiga levou a atriz ao profissionalismo, a partir de 1950, com a peça existencialista "Huis Clos", de Jean-Paul Sartre, ao lado de Cacilda Becker, uma grande amiga e mestra. Ela e Cardoso fundaram em São Paulo a própria companhia teatral, o Teatro Bela Vista, inaugurado com o clássico "Hamlet", de Shakespeare. A empreitada teve o apoio financeiro da elite paulistana e, na comemoração de um ano, o casal montou "Chá e Simpatia", de Robert Anderson, sucesso de público e crítica. Os atores se separaram cinco anos após o casamento e partilharam muitas dívidas. Por determinação judicial, Cardoso precisou viajar com apresentações e ganhar dinheiro para pagar os credores, enquanto Licia ficou no Bela Vista, até 1970. O prédio antigo foi demolido e deu origem ao atual Teatro Sergio Cardoso. Já mais velha, Licia produziu e encenou teatro infantil, como empresária artística bem-sucedida. Fez novelas nas televisões Paulista, Tupi e Bandeirantes e comandou, a partir de 1969, programas na TV Cultura, como o "Quem é Quem", "Presença" e "Porque Hoje é Sábado". Na Cultura, a atriz enfrentou a censura, com direito a um revólver em cima da mesa em uma das ocasiões, e nunca esqueceu a última conversa com Vladimir Herzog, morto sob tortura da ditadura militar, em 1975. "Ele disse: você não tem medo de falar comigo? Eu respondi: deixa de bobagem. No dia seguinte, ele morreu." Na TV, como diretora, ela criou o Teatro 2, com a montagem de 116 peças em uma fase crítica para os artistas, e liderou diversos programas. "Ela foi uma mulher de visão, à frente de seu tempo, e a TV Cultura se orgulha de celebrar sua trajetória no ano de seu centenário", diz a presidente da Fundação Padre Anchieta, Maria Angela de Jesus. O documentário se encerra com uma frase de Licia. "Quando o espetáculo termina, nada sobra do trabalho de um ator. A não ser algumas fotografias, uns recortes de jornal, alguns troféus, e as saudades que permanecem no público."
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