O líder indígena Timóteo Verá Tupã Popygua citou as mudanças climáticas para falar da cheia do rio Taquari que deixou a aldeia Takuari isolada desde o último sábado (12), quando enchentes tomaram conta de várias cidades do Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, principalmente Eldorado, onde fica a comunidade. "A gente não esperou para acontecer esse fenômeno da natureza. Ele está acontecendo não é só aqui na região do Vale de Ribeira, mas em vários países, em várias regiões do país", afirmou. Várias casas da aldeia, que tem cerca de 50 pessoas, foram atingidas pela água. Os indígenas tiveram de se refugiar em um lugar mais alto e só conseguiram voltar nesta terça-feira (15), quando a chuva parou e o rio começou a descer. Havia muita lama e sujeira no local. A Defesa Civil paulista preparou uma operação, que só terminou na noite desta terça, para levar mantimentos, água, produtos de limpeza e rações para animais em cinco barcos: dois dos bombeiros, um da Polícia Militar Ambiental e dois do COE (Comando de Operações Especiais). A Folha acompanhou a expedição e foi até a comunidade indígena em um dos barcos do Corpo de Bombeiros. De origem tupi-guarani, a comunidade ocupa uma área de 2.278 hectares de Mata Atlântica, conforme dados da prefeitura, e se desloca dali de carro. Até a noite desta terça não era possível fazer o acesso por terra, mesmo com veículos 4x4. A viagem de barco levou cerca de meia hora, a partir do ponto escolhido pela PM Ambiental para iniciar o trajeto no bairro Itapeúna, em Eldorado. "Estamos aqui há 14 anos e nunca deu uma chuva com essa intensidade", afirmou o cacique à reportagem. "Fomos para um lugar mais seguro, no alto, e ficamos no mato." Os primeiros socorristas só conseguiram chegar à aldeia na noite anterior, a partir de um mapeamento feito com uso de drones para se saber como navegar até lá em meio à chuva, que ainda não havia parado. "Era necessário saber o ponto exato [do desembarque na aldeia] e das necessidades que precisaríamos para chegar até lá", afirmou o capitão Fábio Cintra, comandante do COE. "É um local de difícil acesso." As dificuldades começaram ao se colocar as embarcações na água, pois havia muita lama no leito do rio. Outro obstáculo era a navegabilidade, com a forte correnteza, também devido às tempestades dos dias anteriores. O capitão Maxwel Souza, da Defesa Civil, lembrou que foi preciso unir várias forças de segurança para conseguir levar caixas e baldes até a aldeia. A organização e o planejamento para a operação, que contou ainda com a Fundação Florestal, levaram cerca de quatro horas até o primeiro barco ir para a água. "Os mantimentos dessas famílias já haviam acabado e foi preciso uma equipe especializada para conseguir chegar lá", disse Rodrigo José Silva Aguiar, gestor da Fundação Florestal na APA (área de preservação ambiental) dos Quilombos do Médio Ribeira. "Faltava água para consumo humano lá." Acredita-se que o acesso por terra possa ser feito nesta quarta-feira (16) e serão levados colchões de caminhão para a aldeia Taquari. Ao menos outras quatro regiões que estavam isoladas foram acessadas pela Defesa Civil nos últimos dois dias. Entre elas estão comunidades quilombolas. Ainda na tarde desta terça, um helicóptero Águia, da Polícia Militar, fez o socorro de um homem de cem anos de idade que estava em uma dessas áreas isoladas —pela água ou por interdição de estradas— na zona rural de Eldorado. O idoso tem sequelas de um AVC e estava com dificuldades respiratórias. Segundo a Defesa Civil, ele foi içado por um guincho elétrico e depois transferido para outro helicóptero da PM, preparado para atendimento aeromédico, que o levou até um hospital de Registro, município vizinho. Nesta terça havia 60 famílias desabrigadas em Eldorado, segundo a Defesa Civil estadual. São pessoas que não puderam voltar para casa e estão hospedadas com parentes e amigos. O prefeito Noel Castelo da Costa (Solidariedade) estima que só em dois ou três dias saberá o total de pessoas atingidas, por causa de regiões isoladas —na noite desta terça, quando a reportagem deixou Eldorado, já era visível que áreas inundadas pela manhã estavam praticamente secas na região central. Em todo o Vale do Ribeira, onde fica Eldorado, segundo o último balanço da Defesa Civil, eram 130 famílias desabrigadas e 20 desalojadas, essas com residências sem condições de retorno. Em Sete Barras, cerca de 450 imóveis foram afetados e houve 25 desalojados. Em Registro, são cerca de 150 pessoas desabrigadas e 11 desalojadas.
'Nunca deu uma chuva com essa intensidade', diz l�der de aldeia ind�gena ilhada em Eldorado (SP)
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