Numa tradu��o e num filme, Ulisses e a 'Odisseia' entram nas guerras culturais

Numa tradu��o e num filme, Ulisses e a 'Odisseia' entram nas guerras culturais

A "Odisseia" começa com a palavra homem, em grego, "andra". Não o homem genérico, símbolo da humanidade. Nem o homem qualquer, pois é qualificado de "polýtropon", palavra que, dizem os entendidos, soma "muito", "modos" e "voltas" para obter Odisseu —Ulisses, em latim. Nas traduções para idiomas contemporâneos, esse homem costuma ser adjetivado de versátil, astuto, sutil, esperto, ladino, cheio de truques. Em 2017, a erudita britânica Emily Wilson verteu o verso inicial da "Odisseia" para: "Fale-me desse homem complicado, musa". Ela prossegue: "Conte-me como ele errou e se perdeu/ depois de destruir a sagrada cidade de Tróia,/ e por onde passou, e quem encontrou,/ e a dor que padeceu nas tempestades no mar,/ e como penou para salvar a própria vida/ e trazer seus homens de volta para casa." O diretor Cristopher Nolan disse que a tradução da ensaísta e poeta formada em Cambridge serviu-lhe de inspiração ao filmar "A Odisseia". Referiu-se especificamente ao verso "Fale-me desse homem complicado". Complicado é o mundo em que o herói habita. Emily Wilson diz que nele vive uma gama magnífica de gentes e incidentes: "gigantes e mendigos, jovens arrogantes e velhos escravos vulneráveis, uma princesa que lava roupa e um guerreiro morto que sente saudade do sol, deuses, deusas e fantasmas, atos de coragem, casos amorosos, feitiços, sonhos, canções e contos". Quanto ao complicado Odisseu, ele "contém multidões: é um migrante, um pirata, um carpinteiro, um rei, um atleta, um mendigo, um marido, um amante, um pai, um filho, um guerreiro, um mentiroso, um líder e um ladrão." O mundo de Ulisses e da "Odisseia" não é o nosso. Emily Wilson fundiu o mundo de antes e o de hoje. Ela dispensou o verso homérico, o hexâmetro dáctilo, um ritmo de seis batidas conveniente para a memorização no grego antigo, mas estranhíssimo noutras línguas. Usou o pentâmetro iâmbico, de dez sílabas agrupadas em duplas. São versos brancos, sem rimas, o ritmo de Shakespeare, Milton, Byron, Eliot, Auden, de um monte de poetas contemporâneos. Em vez de fazer uma tradução que, como tantas outras, fosse prosa empolada, investiu na poesia. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Pode parecer uma mera mudança formal. Não é. Prodigiosa, a tradução fez com que os 12.110 versos da "Odisseia" adquirissem uma sonoridade encantatória, um timbre fluido que recria a oralidade de Homero. Por isso, o audiolivro da tradução de Emily Wilson, com mais de 13 horas de duração, parece mais curto que as três horas do filme de Nolan. O filme é uma coisa e o poema, outra. Este teria começado a ser criado há uns 3.000 anos, e só teria sido fixado por escrito na passagem do sétimo para o sexto século a.C. Entrementes, milhares de declamadores teriam recitado, dito e redito hinos, cantos e contos, para plateias reunidas em praças e festivais. Em alguma hora, alguém, talvez um Homero, que não se sabe se existiu, juntou os tijolos numa narrativa épica. Daí um estudioso chamado Friedrich August Wolf ter considerado, em 1795, que "Odisseia" foi feita por "todo o povo grego", ao longo de séculos sem fim. Emily Wilson argumenta que filmes e séries de televisão também são obras coletivas, frutos do trabalho de inúmeras pessoas, e, sendo assim, "pode ser útil pensar nesses termos a autoria da ‘Odisseia’". Mas há a questão das ênfases. No poema, os deuses intervêm a cada passo, orientam os humanos e definem seu destino. O filme sumiu com os deuses. A exceção é Atena, cujos atos não têm nada de divino. Emily Wilson, a primeira mulher a traduzir "Odisseia" para o inglês, extirpou ofensas machistas do tipo "vadia" e "puta", inexistentes no poema, mas usadas em traduções anteriores, o que lhe valeu vaias nas redes sociais. Nelas, Nolan também foi apedrejado por ter escalado a atriz negra Lupita Nyong’o para fazer Helena, a mulher mais linda do mundo. Para além das guerras culturais, o mundo atual está na tela e na tradução em dois aspectos decisivos. Emily Wilson sublinha que todos os servos na "Odisseia" são escravos, algo naturalizado no mundo homérico, mas não hoje. E Christopher faz com que Ulisses, o saqueador de cidades, constate que é rei e enriqueceu por meio da violência e da guerra. Se as sociedades humanas se tornarem socialistas, a exploração do homem pelo homem e as guerras serão vistas como hoje vemos a escravidão: com horror. E "Odisseia" será a cicatriz de um mundo que acabou —como o dos deuses olímpicos, nos quais ninguém mais acredita. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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