Novo �lbum de Steven Wilson � uma esp�cie de filme para os ouvidos

Novo �lbum de Steven Wilson � uma esp�cie de filme para os ouvidos

Compositor, multi-instrumentista, produtor e engenheiro de mixagem, o inglês Steven Wilson construiu uma carreira singular no rock, transitando entre progressivo, música eletrônica, folk, psicodelia e experimentação sonora. E parece estar atravessando um jorro criativo. De 2021 para cá, com pandemia e tudo, lançou cinco álbuns. Seu novo trabalho, nas plataformas em 6 de novembro, "Requiem for a Village", é um trabalho inquieto, inclassificável. O disco é uma viagem imaginária a uma pequena aldeia britânica que parece existir fora do tempo e do espaço. Um lugar de aparência bucólica, mas habitado por mistérios, personagens estranhos e acontecimentos que oscilam entre o fantástico e o assustador. Com 12 faixas distribuídas em 54 minutos, o trabalho foi concebido como uma espécie de filme para os ouvidos, no qual música, narrativa e atmosfera se combinam para construir um universo próprio. A inspiração vem, em parte, do chamado folk horror, gênero explorado em livros e filmes que expõe um lado sombrio das tradições rurais, do folclore e das comunidades isoladas. Seu disco do ano passado, "The Overview", focava uma viagem espacial, em duas longas suítes. A mudança da imensidão do cosmos para um vilarejo foi uma espécie de reação planejada. "Eu gosto de me afastar dos trabalhos anteriores, em temas e sonoridades. Não gosto de me repetir, nem mesmo em modelos que foram bem-sucedidos. David Bowie, sabe? Nunca ser igual. Bowie ensinou isso a todos que fazem música." Uma das referências assumidas por Wilson é a série britânica infantil "Children of the Stones", exibida na década de 1970, sobre uma aldeia envolvida em acontecimentos sobrenaturais. O roteiro da narrativa que acompanha o instrumental foi escrito por Andy Partridge, ex-líder do XTC, colaborador habitual de Wilson, e ganhou a voz do ator escocês David Tennant, conhecido também por interpretar o protagonista da série cult "Doctor Who". "Requiem for a Village" mistura rock progressivo, folk e eletrônica, algo parecido com aquilo que já foi chamado de "música ambiente". "A ideia me levou a pensar no passado, algo de nostalgia, e isso provocou uma ideia de explorar um processo diferente de gravação." Wilson decidiu valorizar as imperfeições humanas e abandonar parte dos recursos tecnológicos de correção e acabamento que costuma utilizar. "Queria as imperfeições que hoje são corrigidas no estúdio. Recorri a sintetizadores analógicos, instrumentos acústicos e até violino, oboé e bateria, mesmo sem saber tocar nenhum deles. A intenção era recuperar a espontaneidade e as marcas da execução humana, deixando que os acidentes e as imperfeições também participassem da criação. Até as afinações não estavam corretas." Wilson acredita que a tecnologia hoje à disposição nos estúdios levou os músicos a serem menos ousados, mais preguiçosos. "A grande maioria da música de hoje é chata, banal, porque é perfeita, certinha demais. É muito fácil imitar qualquer tipo de música que outras pessoas criaram. IA é uma coisa nociva." Ele admite que o álbum é um flerte com o passado. "Falar de uma aldeia pequena, isolada no tempo e no espaço, me levava a uma coisa antiga, nostálgica. Então quis que a gravação também soasse assim. Eu praticamente aprendi esses instrumentos como uma criança. Simplesmente fui tocando." Wilson se empolga ao comentar a narrativa do álbum. "Eu adoro folk horror. O vilarejo é um lugar afastado do mundo moderno, com aparente tranquilidade, mas há algo sinistro debaixo dessa quietude. Gosto de pensar nesse lugar como uma coisa viva, que carrega uma memória de tudo de ruim que já aconteceu ali." O compositor classifica "Requiem for a Village" como trilha sonora para um filme inexistente. "Não consigo separar as faixas, é uma peça de 54 minutos. Um filme sem imagens, não para os olhos, mas para os ouvidos. A narração de David Tennant faz a conexão entre os personagens e o ouvinte. Com um belo sotaque escocês." Aos 58 anos, com 13 discos gravados desde 2004, Wilson não é muito conhecido no Brasil. Além da produção autoral, ele é um dos profissionais mais requisitados na recuperação e remixagem de álbuns clássicos. Trabalhou com catálogos de artistas como King Crimson, Jethro Tull, Yes, Tears for Fears e Roxy Music, desenvolvendo possibilidades do áudio imersivo, especialmente no formato Dolby Atmos. O público roqueiro pode reconhecê-lo mais facilmente pela música que fez com o grupo Porcupine Tree, criado em 1987 inicialmente como um projeto praticamente individual, que se transformaria em uma das bandas mais respeitadas do rock progressivo. O Porcupine Tree começou explorando a psicodelia, inspirado em grupos como o Pink Floyd. Aos poucos, incorporou elementos mais pesados, chegando a uma combinação de rock progressivo e metal alternativo que encontrou sua expressão mais contundente em "In Absentia", de 2002. O Porcupine Tree entrou em hiato em 2010, retornando em 2022 com "Closure/Continuation". Ou seja, na verdade Steven Wilson fez seis álbuns desde 2021.

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