Duas mulheres se encontram. Uma é japonesa, diretora de teatro e tem um câncer terminal. A outra é francesa e dirige um lar de idosos com transtornos degenerativos, em Paris. As duas se conhecem por acaso e alteram o curso da vida uma da outra. Como nos outros filmes do japonês Ryusuke Hamaguchi, nada excepcional acontece —a vida cotidiana e seus traumas são suficientes para contar uma história. Seu novo longa, "All of a Sudden", que compete pela Palma de Ouro em Cannes, quer decupar grandes ideias por meio da relação entre Mari, a japonesa, e Marielou, a francesa. Inspirado no livro "You and I – The Illness Suddenly Get Worse", de Makiko Miyano e Maho Isono, o filme faz uma crítica feroz e melancólica ao capitalismo, que deteriora os corpos e mentes humanas. Revoltada com a forma que sua mãe foi escanteada da sociedade antes de morrer com Alzheimer, Marielou decidiu estudar para administrar o lar de idosos em Paris. Ela aplica a metodologia "humanitude", em que o cuidado deve ser aliado à dignidade, autonomia e ao vínculo afetivo, por meio de técnicas que envolvem o toque, o olhar e a fala. Tudo é explicado detalhadamente —e longamente— a Mari por Marilou. A francesa, porém, não consegue fazer seu trabalho com a qualidade que gostaria, porque a empresa administradora do lar não quer gastar mais dinheiro e se recusa a contratar mais cuidadores. O resultado são funcionários exaustos, e ela à beira de um burnout —relato, afinal, comum no mundo do trabalho atual. Nos diálogos longos, já uma marca registrada de Hamaguchi, Mari e Marilou falam sobre como o capitalismo exige mais produtividade, mas paga cada vez menos às pessoas. Elas concordam que o sistema permitiu a riqueza cultural que temos hoje, mas está fadado a autodestruição conforme destrói o ambiente para explorar seus recursos e deteriora a saúde física e mental dos humanos. Não é à toa que pessoas doentes ou com alguma condição cognitiva estão no centro da trama de Hamaguchi. São grupos que não conseguem ser produtivos como o capitalismo exige e, por isso, são historicamente isolados em uma sociedade que define apenas o que é útil como digno. Os diálogos extensos, o clima contemplativo e a esperança um pouco amarga estão presentes em "All of a Sudden" assim como em "Drive My Car", produção de Hamaguchi coroada com o Oscar de melhor filme internacional em 2022. Também há a crítica social afiada, como em seu último "O Mal Não Existe", sobre a hostilidade humana contra a natureza. Em "All of a Sudden", porém, as conversas são menos delicadas e sublimes do que nos antecessores, e os diálogos por vezes parecem um seminário acadêmico. A sutileza talvez tenha se perdido com o francês, língua predominante no filme, ainda que Mari e Marilou também falem em japonês. É uma provocação lançada por um dos personagens do diretor, um ator japonês dirigido por Mari. "Falamos francês em respeito ao público, mas coisas emocionais são ditas com a língua materna, no caso, o japonês", diz ele à plateia, em certo momento.
Novo filme de Hamaguchi debate deteriora��o humana pelo capitalismo em Cannes
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