O calor do fim do verão gruda no pescoço. É um bafo úmido que vem dos pântanos do Bayou, por onde deságua o mítico rio Mississippi. Nas calçadas, o pessoal anda sem pressa, às vezes estende uma cadeira na soleira só para olhar o movimento. Bebe-se (e muito) na rua. Não parece que estamos nos Estados Unidos. Ainda assim, Nova Orleans tem um lugar destacado no imaginário americano, talvez justamente por sua posição sui generis. Afinal, falamos do berço do jazz, dos bordéis e cabarés onde os marinheiros apostavam seus soldos e do Mardi Gras, o carnaval local. As culturas que se estabeleceram ali —os nativos, depois os franceses, em seguida os espanhóis e, por fim, os ingleses e africanos escravizados nas plantations— fermentaram um caldo de sons, cheiros e ritmos que não existe em outro lugar do país. O French Quarter é o ponto de partida. Trata-se do centro histórico, um conjunto de cerca de 70 quadras tomadas por casarões centenários, com suas varandas de ferro típicas. Por ali circulavam colonos, prostitutas e piratas. Diz a lenda que um desses corsários tinha uma ferraria, hoje um bar que leva o seu nome, o Lafitte’s Blacksmith Shop, que já serviu muita bebida a boêmios como Tennessee Williams, William Faulkner e, mais recentemente, Nicolas Cage. O French Quarter foi uma das poucas áreas poupadas pelo Katrina, que em 2005 alagou 80% da cidade —é comum ouvir do pessoal histórias sobre o furacão. Fica nesse bairro francês a famosíssima Bourbon Street, coalhada de bares com música ao vivo, que enche à noite com rapazes que assobiam do parapeito para as moças que passam ali embaixo. A rua é parada obrigatória, é claro, e dá para se ter alguma amostra do som local por ali. A Jazz Playhouse, por exemplo, é uma casa de shows que costuma sediar apresentações da Big Sam's Funky Nation, banda que funde funk americano e outros gêneros sob o comando do trombonista Big Sam. Mas é bom avisar que os locais preferem passar as noites na Frenchmen Street, de fato bem mais autêntica e menos turística. O Spotted Cat é a melhor pedida para ouvir música ao vivo. Amantes do jazz raiz não podem perder a chance de ir ao Preservation Hall, em atividade desde 1961 no coração do French Quarter. No que parece ser a pequena sala de um sobrado, o público se amontoa em bancos para ver as bandas locais improvisarem, misturando músicos de várias gerações. É imperdível. Aqueles sons parecem entrar pelos poros e sacudir os pés e os ombros. Tíquetes custam em média US$ 43 (R$ 236) e devem ser comprados com antecedência no site. Quem quiser conhecer as origens ainda mais remotas do gênero do jazz deve ir à Congo Square, dentro do Parque Louis Armstrong. Era uma praça onde, ao longo do século 18, escravos costumavam se reunir aos domingos, o único dia em que eram liberados do trabalho na lavoura, e se juntavam em rodas com tambores, cabaças e banjos. Mas o estilo musical ganharia seus contornos atuais mesmo nos cabarés locais, e o melhor lugar para se aprofundar nesse lado é o Storyville Museum, museu dedicado a recontar a história da prostituição na cidade, com tíquetes a partir de US$ 25 (R$ 137). Só mesmo em Nova Orleans para haver uma instituição dedicada a esse tema, central para compreender sua fama de devassa, imortalizada em canções como "The House of the Rising Sun". A história é a seguinte: no fim do século 19, para acabar com o "trottoir" que rolava por toda a parte, as autoridades resolveram confinar as prostitutas num distrito da luz vermelha, onde fariam vistas grossas. Eis que surgiu Storyville, onde as mulheres se anunciavam seminuas nas janelas em troca de poucos dólares. Com bastante material audiovisual, o museu reconstitui os quartinhos onde elas ficavam, mostra os tratamentos arcaicos contra as ISTs e tudo o que aquilo germinou: o primeiro cassino do país, a invenção do pôquer e a popularização do jazz, tocado ao piano para embalar apresentações de strip tease nos cabarés. Buddy Bolden, o pai do gênero, era um dos que tocavam ali, e Louis Armstrong, seu maior expoente, cresceu nas redondezas. Ainda na seara musical, vale falar sobre o Mardi Gras, um dos muitos pontos de contato entre a cultura daquela cidade e a brasileira. Nas terças-feiras de Carnaval, a cidade é tomada por cortejos de gente fantasiada e embriagada, não muito diferentes dos nossos. Do alto de carros alegóricos, organizados pelos chamados krewes, parecidos com as agremiações cariocas, os participantes atiram objetos ao público, principalmente miçangas de plástico coloridas, as beads. Dá para ver de perto os bastidores da festa no Mardi Gras World, a alguns quarteirões do centro histórico. É um gigantesco galpão onde são criadas as alegorias dos desfiles, não muito diferente dos barracões das escolas de samba. Personagens de filmes, celebridades, monstros são esculpidos ao longo do ano para saírem às ruas em fevereiro. O tour de uma hora, que costura visita ao espaço e informações sobre a história de Roy e Blaine Kern, os idealizadores daqueles adereços, custa US$ 30 (R$ 165). Quando a noite cair, é possível jantar no Natchez, o último barco a vapor ainda em atividade na área, que leva turistas pelo rio Mississippi ao som de jazz. Entradas custam a partir de US$ 26 (R$ 143). A embarcação é propelida por aquelas tradicionais rodas de pás na sua popa, que marcaram a obra de Mark Twain e todo um imaginário sobre o sul profundo americano. O jornalista viajou a convite do Brand USA
Nova Orleans re�ne jazz, Mardi Gras e hist�ria �nica no sul dos EUA
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