Para chegar às festas de "O Grande Gatsby", o champanhe era encaixotado em Reims e Epernay, no nordeste da França, e enviado para a pequena ilha de Saint Pierre-et-Miquelon, próxima ao Canadá. De lá, era levado de barco para o sul; o barco ancorava em águas internacionais, próximo de Nova York, onde ficava à espera de lanchas que vinham buscar o produto. Daí aos "longos goles, ávidos" de Nick Carraway e Daisy Buchanan —e outros belos decadentes dos anos loucos— era um pulo. Nesse mundo de embriaguez elegante, a Lei Seca vigorava há cinco anos. Muitos bebiam animadamente nos bares clandestinos. Os gins feitos em banheira e uísques em alambiques improvisados matavam a sede etílica, disfarçados por ingredientes doces, e eventualmente matavam por intoxicação. Os mais ricos evitavam o ligeiro desconforto, compondo a ponta final do contrabando marítimo. Autor da obra-prima de 1925, Francis Scott Fitzgerald teria feito 130 anos neste 24 de setembro. Sem ele, a coquetelaria e o hedonismo refinado teriam menos graça —a começar pelo drinque mais pedido nos bares de São Paulo, batizado com seu nome. Mint juleps, gin rickeys e outros coquetéis não nomeados escorrem das páginas do Gatsby. Um trecho descreve a mansão: "Na sala principal há um bar com um autêntico apoio de cobre para os pés, cheio de garrafas de gim, licores e xaropes há muito esquecidas". (Talvez o butim de adegas aristocráticas.) Em outro trecho fala-se em uma "bandeja de coquetéis flutuando no crepúsculo." Os primeiros livros do autor de "Suave é a Noite" são ainda mais pródigos em drinques mencionados. Em "Este Lado do Paraíso", sua estreia de 1920, um personagem pede um daiquiri duplo. Outro momento descreve uma bebedeira de bronx (clássico com gim e suco de laranja). O livro "Café Royal Cocktail Book", de 1937, traz duas receitas de um certo F. Fitzgerald (Fitz). Seria um homônimo, lance de "fake marketing" ou o grande cronista do período entreguerras também teria se aventurado atrás do balcão? O little tickle é mistura de gim, vodca e crème Yvette. Já o hot night traz gim, rum e suco de laranja. Por outro lado, o popular fitzgerald, quase uma caipirinha com gim, não surgiu nos cenários dos "Contos da Era do Jazz". Foi criado 50 anos depois da morte precoce de Fitzgerald; por volta de 1990, na chamada era das trevas da coquetelaria (basta ver o filme "Cocktail", de 1988, para entender o porquê). Dale DeGroff, a quem se atribui o róseo cosmopolitan, tinha a política de servir o que o cliente pedisse, mesmo que não tivesse no cardápio. Certa noite, no seu Rainbow Room, em Manhattan, um sujeito disse estar cansado do gim-tônica: haveria algo diferente, na mesma linha? DeGroff se virou com uma receita "à la minute", a qual chamou, sem dar muita importância, de gin thing. Outra frequentadora achou que era pouco. E sugeriu o nome do escritor. Fitzgerald 50 ml de gim 22,5 ml de suco de limão-siciliano 15 ml de xarope de açúcar 3 lances de Angostura Bata os ingredientes com gelo e coe para uma taça coupe. Finalize com uma rodela de limão LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Nos 130 anos de Fitzgerald, o fitzgerald
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