Norueguesa exp�e a dor das mulheres pobres mesmo se doer a homens

Norueguesa exp�e a dor das mulheres pobres mesmo se doer a homens

"Ando à procura de uma pessoa. Há treze dias procuro por ela." Assim se abre "Nada Nasce ao Luar", romance de 1947 da norueguesa Torborg Nedreaas. Um homem percorre a cidade atrás de um rosto. A mulher que procura lhe é desconhecida e, ao mesmo tempo, radicalmente íntima: numa única noite, ela lhe confiou a história mais difícil de sua vida. É desse homem que o romance recua para a noite do encontro e para o relato da mulher. Num anoitecer chuvoso de março, ele a abordou na saída da estação, caminharam a esmo antes de subir ao apartamento dele e, lá, ela lhe propôs uma escolha. "Pode ter meu corpo ou minha alma." Decidiu ficar com a alma, e passou a noite ouvindo-a. Nome central da narrativa surgida no pós-guerra norueguês, Nedreaas é redescoberta hoje na esteira de autoras como a dinamarquesa Tove Ditlevsen, da "Trilogia de Copenhagen", e só agora chega ao Brasil. Premiada e sempre declaradamente à esquerda, Nedreaas fez da vida das mulheres pobres o centro de uma obra que incomodava inclusive os homens de seu próprio campo político. O que a mulher conta ao protagonista de "Nada Nasce ao Luar" é a história de uma paixão aos 17 anos por um professor casado, e como viveu isso na Noruega pobre do entreguerras. Gravidez indesejada, aborto autoinduzido, o risco e a vergonha que recaía sobretudo sobre as mulheres proletárias. Fazer um homem escutar o corpo feminino é o gesto político da narradora: "os homens não gostam de ouvir essas coisas", ela diz antes de descrever o aborto. "Vocês têm que saber sobre isso." Mas o que está em jogo é a verdade de uma experiência como problema de narração: que relato dá conta do vivido? A protagonista sabe que contar deforma, avisa que não é "uma boa contadora de histórias, ao menos não quando estou dizendo a verdade", e prefere a verdade truncada à narrativa bem-feita. Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias A narração avança e recua, se interrompe e se retoma. E é nessa forma quebradiça, e não na sucessão ordenada dos fatos, que o livro interessa, nos lances implacáveis de uma vida relembrados para um único ouvinte que sumirá com a manhã. O real chega pela concretude afetiva das palavras e pelo avançar incerto. A dor narrada não é exibição retórica de sofrimento, e cabe a quem ouve, ou lê, sustentá-la sem o alívio do sentimentalismo. Nedreaas não quer provar que aquilo aconteceu, mas mostrar como se conta algo que ainda corrói. E o lugar em que põe as leitoras e leitores é o desse homem que escuta, como se fôssemos reféns de uma voz que não podemos consolar. Não por acaso, a mulher já avisara. "Você não sabe no que está se metendo. Porque isso aqui vai te atormentar." A frase-título, "Nada Nasce ao Luar", é também a imagem exata de um amor que não tem como vingar numa época arrasada, cínica e estéril, onde a paixão só existe na claridade insuficiente da Lua, sem nunca se converter em outra coisa.

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