"Vou lutar por nossos filhos", diz uma delas. Outra, solta, "precisamos defender nossas crianças". Há ainda as que vociferam "eles precisam de mais direitos!". E assim vão se enfileirando na propaganda eleitoral gratuita país afora mulheres que se intitulam mães atípicas em busca de vagas nos legislativos estaduais e federal. Existem também homens candidatos pegando carona em questões de neurodivergências, nesse caso, se portando como amigos da causa da inclusão. Enquanto representantes de pessoas com deficiência, sem deficiência, querendo uma vaga nas casas legislativas ganham visibilidade, dados do IBGE divulgados recentemente revelam que está desabando a presença política efetiva desse grupo social. O número de vereadores com diferenças físicas, sensoriais e intelectuais recuou de 522, em 2020, para 391, em 2024, em todo o Brasil.A deficiência reúne experiências tão distintas que ninguém deveria se declarar porta-voz natural de todas elas. Acessibilidade e inclusão são causas comuns, mas não apagam as demandas específicas de pessoas autistas, surdas, cegas, com deficiência física ou intelectual e doenças raras. A experiência de criar um filho pode revelar uma parte desse universo; jamais autoriza alguém a reivindicar o todo. Dito isso, faz total sentido que mães e familiares se organizem para defender direitos e batalhar por avanços para seus queridos. O que não quer dizer que é preciso ver neles legítimos representantes de causas ou porta-vozes naturais de espectros e tipos sociais. Ter protagonismo da própria vida e de suas necessidades e desejos está na raiz das lutas históricas de pessoas com deficiência que seguem, em diversos aspectos, invisibilizadas. A sub-representação, o assistencialismo e o capacitismo restringem as possibilidades de independência e autonomia.Votar em alguém apenas por ser mãe atípica que promete, se eleita, criar leis para o seu filho, mesmo que use "nossos filhos" no discurso, ajuda a apagar quem de fato deveria ser representante de poder. Uma bandeira não precisa necessariamente ser empunhada por um braço em riste. Pode ser sustentada pela boca, apoiada nos ombros ou estendida sobre o colo. Entendo, porém, que bons representantes não precisam ter cores, etnias e características específicas para agir por coletivos estigmatizados e marginalizados. Boas ideias, bons projetos e comprovação de engajamento podem ser credenciais para ser escolhidos como candidatos.Mas um ponto é evidente: nenhum outro grupo social, além de pessoas com deficiência, aceitaria com tanta naturalidade ser representado politicamente por um parente. Não se considera automaticamente o marido representante das mulheres, o filho representante dos idosos ou o patrão representante dos trabalhadores. A diversidade precisa com urgência ampliar suas representações de poder, mas não ao custo de estar sempre a reboque de outros interesses e nas mãos de terceiros. Gente capaz, com a camiseta e a própria vida inteiramente aderidas aos universos das deficiências, está se apresentando e pode merecer votos. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
N�o voto em m�es at�picas
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.