Leandro Mendes dos Reis, o Leo da Kibon, 34, sabe do jeito mais doloroso o que é não existir no mapa. Morador do Morro da Kibon desde os três anos —quando chegou de Irecê (BA)—, ele viu a família reconstruir a casa mais de dez vezes, derrubada por chuvas e reintegrações de posse, em um dos bairros mais violentos de Santo André (SP) nos anos 1980 e 1990. O nome do morro veio de uma fábrica de sorvetes que existia ali. E foi uma tragédia que marcou todos ali pela falta de endereço. Um incêndio matou uma família inteira, porque os bombeiros não localizaram a casa em chamas. Também não havia água encanada para conter o fogo em barracos próximos nem endereçamento postal para guiar o socorro. "Não ter CEP é não ter dignidade", diz Leo. Liderança comunitária, ele apoiou a fundação do Instituto Kibon, e ajudou a assentar 300 famílias no morro. Também foi apoiador na implantação do CEP Digital, em parceria com a Prefeitura de Santo André, o Google e a logitech naPorta, comandada por Sanderson Pajeú e Leonardo Medeiros, finalistas do Prêmio Empreendedor Social 2026, na categoria Inovadores Sociais do Ano. A seguir, ele descreve como superou a desconfiança dos moradores, em 2024, para colocá-los no mapa dos direitos sociais. "Cheguei ao Morro da Kibon aos três anos. Meu pai tinha vindo antes e trabalhou um ano sem almoçar para juntar dinheiro para nos trazer. Quando nos reunimos em Santo André, fomos morar num barraco no barranco. Vivi ali a dor de ver nossa casa cair por reintegrações de posse e tempestades. Perdi a conta de quantas vezes a reconstruímos: foram mais de dez. Em dias de chuva forte, o vento tirava o telhado, e a minha mãe colocava eu e meus quatro irmãos sob a beliche. De dia, eu e meus irmãos tirávamos a terra que entrava na casa. A gente temia que as paredes caíssem. Meu pai chegava de noite e ainda tirava barro, fazia as escoras. De dia, eu coletava material para reciclagem com minha mãe. Vendíamos no mesmo dia para comprar comida. Como não tínhamos água encanada, corríamos com garrafas até a única torneira comunitária do morro. A gente usava tudo de doação: roupas, calçados… Mas o que mais nos feria era a invisibilidade. Teve um incêndio, quando eu tinha 10 anos, que destruiu a casa de um colega de escola. Sem água para apagar as chamas e sem CEP para guiar os bombeiros, a família morreu —mãe, tia e três crianças. O socorro passou pela avenida e não achou a casa a tempo. Foi um drama para a comunidade. Isso era comum: faltavam entregas, cartas, remédios, saneamento. Parentes se perdiam se não fossem guiados por alguém. Geralmente eu era o guia, porque, por catar recicláveis, conhecia cada viela. Morador de periferia se une a executivo e cria CEP digital em área de risco Ao participar de reuniões comunitárias com meu pai, eu escutava todo mundo. Eu virei uma liderança. As pessoas não conseguiam emprego por não terem endereço; famílias emprestavam CEP de parentes para matricular filhos na creche e no posto de saúde. Era como se, para o Estado, a gente não existisse. O governo nem sabia quantas pessoas viviam ali. Criamos o Instituto Kibon e ajudei a assentar 300 famílias aqui —até a minha. E tudo mudou com o CEP Digital, parceria da prefeitura com a naPorta. Andei com os técnicos pelas vielas para explicar o projeto e vencer desconfianças das pessoas. Foi o trabalho de um ano, em 2024, para conscientizar todos, mapear tudo e adesivar e instalar as placas. Os moradores temiam perder o terreno. Eu sabia o que eles sentiam. Por isso falei com cada um que cada plaquinha e a geolocalização revelam que tem uma família ali. Que todos merecem o olhar das políticas públicas do Estado. Hoje a transformação é real. Não preciso mais correr até a entrada do morro para guiar a ambulância. Os socorristas chegam pela geolocalização, assim como entregas de e-commerce e farmácia, e, ninguém mente mais endereço. Meus pais ainda moram no morro e aqui fiz minha família. E graças a Deus implantamos o CEP Digital. Ele é a semente de dignidade, a certeza de que meus filhos, Christopher e Sofia, têm o direito de existir e figurar no mapa."
N�o ter CEP � n�o ter dignidade, diz l�der comunit�rio de morro em Santo Andr�
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