Salvar a Amazônia pode soar muito clichê, mas encontrar caminhos para isto nunca foi tão necessário: incêndios florestais que se avolumam, desmatamentos que diminuem, porém, nunca cessam e um clima cada vez mais castigante. Há 25 anos coloco "salvar a Amazônia" no meu post-it diário. Visto aqui meu chapéu de ecóloga e cientista. E, no último mês de setembro, marquei mais um ponto em um diminuto pedaço de papel laranja. Com um grupo de pesquisa interdisciplinar, coordenados pela RAS (Rede Amazônia Sustentável), compartilhamos com o mundo um estudo que considero contribuir para orientar a proteção do território amazônico. Neste estudo, publicado na revista Science, comparamos três alternativas de conservação da Amazônia: 1) evitar desmatamentos, 2) evitar degradação e 3) restaurar florestas. A primeira provavelmente não carece de maiores explicações porque é o que todo mundo ouve falar, o que diz muito. A segunda significa evitar que as florestas sejam atingidas por fogo, principalmente, mas também a exploração de madeira. A terceira significa replantar ou deixar recuperar uma área previamente desmatada. E por que essa comparação importa tanto? É que sabíamos que as três alternativas têm recebido pesos diferentes na balança dos investimentos em conservação. Evitar desmatamento já tem prioridade e a restauração tem recebido atenção e financiamento crescente, inclusive com aportes do setor privado. Evitar a degradação, por outro lado, continua relegada a segundo plano. Isso é mais grave se pensarmos nas secas extremas cada vez mais recorrentes, lembremos do El Niño deste ano que chega logo após o de 2023. Então, vamos diretamente aos fatos, quero dizer, aos resultados que encontramos: evitar a degradação por incêndios e extração de madeira foi 15 vezes mais custo-efetivo que restaurar novas florestas. Os números comprovam: a prevenção dessas ações evitaria 68% de perda de biodiversidade e 47% de perda de carbono, enquanto a restauração compensaria apenas 6% da perda de biodiversidade e 15% do estoque de carbono. Por outro lado, combater o desmatamento evitaria a perda de 28% de biodiversidade e de 61% de carbono. Trocando em miúdos, em termos de mitigação das emissões de carbono, evitar o desmatamento, isoladamente, é a ação mais efetiva. Já considerando os benefícios à biodiversidade, a alternativa mais vantajosa é a prevenção da degradação florestal. O trabalho foi longo, tal qual um vinho, foi maturado por dez anos. Usamos duas regiões amazônicas monitoradas pela equipe há 17 anos. Juntas, Santarém (PA) e Paragominas (PA) somam mais de 3 milhões de hectares e compartilham problemas comuns a outras regiões da Amazônia. Entre 2010 e 2020, conjuntamente, elas sofreram quase 159 mil hectares de desmatamento e notem, perto do dobro de degradação florestal (273 mil hectares). Ao mesmo tempo, próximo de 130 mil hectares de florestas se regeneraram naturalmente, mas, infelizmente, 63% delas queimaram. O nosso "pulo do gato" para desenvolver esse estudo foi uma espécie de simulação de uma máquina do tempo. Comparamos o que poderia ter acontecido se todo o desmatamento e degradação entre 2010 e 2020 tivessem sido evitados. E ainda, se todos os proprietários de terra com obrigações legais de restaurar, conforme o código florestal, tivessem de fato recuperado suas propriedades. Dessa forma, a equipe, formada por profissionais ligados às florestas, modeladores matemáticos e economistas, pôde avaliar os custos e os benefícios de cada uma das três alternativas. Foram incluídos desde os custos da oportunidade perdida por deixar de usar a terra na agricultura até os custos diretos de plantar árvores. E aqui chegamos ao nosso resultado mais importante: quando as três alternativas são combinadas, os resultados superaram o cenário original em 2010: os ganhos de biodiversidade chegaram a 22% e os estoques de carbono a 42%. Finalmente, a mensagem mais importante a ser gravada no post-it, desta vez verde-limão, é que proteger a Amazônia significa combinar evitar desmatamentos, evitar a degradação e restaurar áreas perdidas. Restaurar áreas sem combater desmatamentos e degradação é jogar dinheiro em um balde furado. E, principalmente, sem ações de combate ao fogo, que custam relativamente pouco, a Amazônia não será salva. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
N�o se salva a Amaz�nia com um balde furado
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