Ex-diretor do banco de investimentos do Credit Suisse, Marcelo Kayath diz que o próximo governo precisará corrigir a rota da política econômica, pois o desequilíbrio das contas públicas virou um problema da vida real dos brasileiros. Ele afirma que uma família que paga juros altos, uma pequena empresa que não consegue financiar o próprio crescimento e um jovem que não encontra oportunidade de trabalho estão pagando o preço do desajuste fiscal. Para o ex-banqueiro, no entanto, a redução na taxa básica não deve ser feita "na canetada", mas com credibilidade fiscal. "Quem não cuida das contas públicas não pode cuidar das pessoas", afirma. A campanha de reeleição de Lula (PT) repete a ideia de que o governo deve ter um olhar social, especialmente aos mais pobres. Kayath tem aproximado Flávio Bolsonaro (PL) de empresários e agentes do mercado financeiro. De perfil discreto, mora nos Estados Unidos e é um violonista premiado. Esses contatos levaram o nome do ex-diretor do Credit Suisse a ser um dos cotados ao Ministério da Fazenda em caso de vitória do senador. "Um cargo como esse só faz sentido se houver condições políticas para implementar uma agenda consistente", afirma. Nesta entrevista à Folha, Kayath disse não acreditar em um ajuste nas contas do governo baseado apenas em aumentar impostos ou cortar indiscriminadamente os programas sociais. "Não acredito que uma política econômica responsável possa simplesmente dizer para essas pessoas: 'se virem'", diz. O que o aproximou da candidatura de Flávio Bolsonaro? Aconteceu em um jantar, em Miami, com outros empresários e investidores. Tivemos a oportunidade de conversar sobre o Brasil e os desafios que o país enfrenta. A partir daquele jantar, tivemos outros encontros para discutir economia e, principalmente, soluções para o país. O que me aproximou foi essa disposição de conversar de forma aberta e construtiva sobre o que precisa ser feito para o Brasil voltar a crescer, investir mais, gerar empregos e recuperar o equilíbrio fiscal. Passei grande parte da minha vida ajudando empresas brasileiras a acessar capital e investidores no exterior. Foram mais de 200 operações que trouxeram cerca de US$ 120 bilhões [R$ 615 bilhões] para investimentos. Vi de perto o enorme potencial do Brasil e os obstáculos de transformá-lo em crescimento. Hoje, acho que não basta ficar olhando de fora e fazendo análises. Se acredito que algumas coisas precisam mudar, também tenho responsabilidade de ajudar a construir a mudança. As investigações contra Flávio Bolsonaro não geram incertezas? A candidatura será julgada pelo que representa e pelo que pretende fazer pelo país. O mais importante são propostas claras para melhorar a vida das pessoas: criar empregos, reduzir o custo do crédito, recuperar o poder de compra e fazer o governo funcionar melhor. Essas questões que vêm sendo levantadas no STF não ajudam a imagem do país no exterior. Quando existe insegurança jurídica, quem sofre não é apenas o investidor: é o trabalhador, o empreendedor e a família, porque o investimento diminui e as oportunidades de emprego também. O sr. chegou a ser cotado para o Banco Central sob Lula. O que mudou? É uma questão de avaliação econômica. Tivemos avanços importantes em vários governos, mas o problema fiscal ficou mais urgente e precisamos mudar a ênfase da política econômica: enfrentar com mais profundidade a dinâmica das despesas obrigatórias, colocar a dívida em trajetória sustentável e criar condições para que os juros possam cair de forma estrutural. Nesse ponto vejo uma convergência com o pensamento do senador Flávio: responsabilidade com as contas públicas, Estado mais eficiente, segurança jurídica, estímulo ao investimento privado e uma economia que volte a crescer de forma sustentável. O que acha que deu certo na política econômica recente? E o que precisa mudar? O Brasil tem uma economia que mostrou capacidade de crescer, um sistema financeiro sólido, reservas importantes e empresas muito competitivas. Mas precisamos olhar para o que não está funcionando. O principal é a combinação de gasto crescente, dívida elevada, juros altos e baixa produtividade. Isso comprime o investimento privado e limita o crescimento. O próximo governo precisa atacar justamente essa combinação. Não se trata de destruir o que existe, trata-se de corrigir a rota. O sr. está cotado para ministro da Fazenda num eventual governo Flávio. Aceitaria? Fico honrado com a confiança e com as pessoas que têm mencionado meu nome, mas é uma discussão muito maior, sobre o futuro econômico do Brasil. Um cargo como esse só faz sentido se houver condições políticas para implementar uma agenda consistente. O sr. organizou recentemente uma conversa de Flávio com banqueiros e empresários. Qual a mensagem passada? Que o Brasil precisa recuperar a previsibilidade, em um ambiente em que empresários possam investir, contratar e produzir sabendo quais serão as regras daqui a três, cinco ou dez anos. O objetivo não é agradar o mercado financeiro, é fazer a economia funcionar. Qual é o principal ajuste a ser feito no fiscal? Não pode começar olhando para uma planilha. Quando uma família paga juros altos porque o país perdeu credibilidade, quando uma pequena empresa não consegue crédito para crescer ou quando falta dinheiro para uma escola, um posto de saúde ou uma obra importante, o problema fiscal deixou de ser um problema de economista. Virou um problema da vida real. Cerca de 92% das despesas primárias de 2027 já estarão comprometidos com despesas obrigatórias. E temos aproximadamente R$ 620 bilhões em renúncias tributárias. Isso mostra que o problema brasileiro não é simplesmente falta de dinheiro. É dificuldade de fazer escolhas. Ajuste fiscal significa cortar programas sociais? Quem está recebendo o Bolsa Família ou o BPC não é o problema do Brasil. Não acredito que uma política econômica responsável possa simplesmente dizer para essas pessoas: 'se virem'. O que podemos fazer é garantir que o dinheiro chegue a quem precisa: combater fraudes, eliminar pagamentos indevidos, integrar cadastros e evitar que programas se sobreponham. Quem não cuida das contas públicas não pode cuidar das pessoas. Mas precisamos criar uma porta de saída: uma boa escola, uma creche para que a mãe possa trabalhar, saúde, qualificação, emprego, crédito e oportunidade. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Qual é o tamanho do ajuste fiscal necessário? Começaria por uma questão mais importante: qual é o objetivo do ajuste? Precisamos caminhar para um resultado primário estruturalmente positivo capaz de estabilizar e depois reduzir a dívida em relação ao PIB. Isso exigirá um esforço relevante ao longo do tempo. Mas não acredito em um ajuste baseado simplesmente em aumentar impostos ou cortar indiscriminadamente programas sociais. Precisamos atacar o crescimento automático das despesas, rever benefícios e renúncias que não se justificam, combater desperdícios e aumentar a eficiência do Estado. O próximo presidente não terá o benefício do gradualismo. O espaço fiscal está muito menor e as despesas obrigatórias ocupam quase todo o orçamento. O grande tema na parte econômica são os juros altos. Como reduzir a Selic? Não se reduz juros na canetada. Sem uma mudança na dinâmica das despesas da União será muito difícil. A melhor política para baixar os juros não é pressionar o BC. É recuperar a credibilidade fiscal. Raio X | Marcelo Kayath, 62 Engenheiro formado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é sócio da gestora QMS Capital e ex-diretor do banco de investimentos do Credit Suisse. Tem MBA pela Stanford Business School
'N�o se reduz juros na canetada', diz Marcelo Kayath, cotado para Fazenda sob Fl�vio Bolsonaro
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