Até domingo eu nunca tinha ouvido falar em Eduarda Campopiano, vereadora de Praia Grande, litoral de São Paulo. Mas, neste domingo de eleição, o Brasil passou a conhecer Eduarda ao ver a candidata a deputada sair vitoriosa das urnas. "Vitoriosa" talvez seja pouco para o feito deste domingo da recém-eleita deputada estadual. Quase dois milhões de pessoas votaram na candidata do PL, a maior votação para a Alesp neste pleito. A pouca idade contrasta com a forma incisiva com que expõe seus pensamentos. A pouca idade contrasta com a forma incisiva com que expõe seus pensamentos. Auto intitulada como "a maior inimiga das feministas de São Paulo", Eduarda rejeita a tipificação do feminicídio, opõe-se ao aborto em qualquer circunstância, é contra a criminalização da misoginia e se recusa a reconhecer mulheres trans como mulheres. Desde domingo tenho chafurdado pelas redes sociais, arena em que Eduarda ganhou projeção, tentando entender mais sobre ela, de onde veio, o que pensa, como vive e, mais importante, quando foi que combater o feminismo se tornou uma promessa eleitoral tão atraente? Como uma mulher progressista e feminista, meu primeiro ímpeto é evocar o espírito de Gloria Steinem e entrar em modo palestrinha, relembrando Eduarda e suas eleitoras como era a vida antes das conquistas do movimento que elas dizem rejeitar. Mas, diante do resultado de domingo, sou obrigada a botar a viola no saco e entender que talvez esta não seja a melhor estratégia. Muito tem se falado sobre a dificuldade da esquerda em se comunicar, especialmente com os mais jovens. Na minha humilde opinião, há também uma dificuldade específica de comunicação do movimento feminista. Mais do que isso, há talvez uma dificuldade de compreender as frustrações e anseios de boa parte do público feminino hoje. Não está fácil ser mulher em 2026. Mulheres estão sendo agredidas e mortas a torto e a direito. Para além da violência física, mulheres estão absolutamente sobrecarregadas. Trabalham, são mães, cuidadoras, donas de casa. A conta das 24 horas do dia não fecha. A conta do salário vs. gastos também não fecha. Muitas não têm rede de proteção, não têm tempo para se dedicarem aos filhos, muito menos para cuidarem de si mesmas. E é a partir desse ponto de vista que a imagem pintada por figuras do campo conservador, de uma mulher que fica em casa, se dedicando ao lar, aos filhos e a si mesma, enquanto um homem virtuoso cuida do resto, se torna sedutora. O discurso antifeminista encontra essa mistura de medo e cansaço e oferece uma explicação conveniente: a culpa é de quem convenceu as mulheres a saírem do âmbito doméstico e conquistarem o mercado de trabalho. A responsabilidade dos homens, das empresas e do Estado pela sobrecarga feminina fica fora da conversa. E a solução proposta para essa sobrecarga passa a ser delegar as áreas conquistadas de volta aos homens: o trabalho remunerado, a responsabilidade financeira, a proteção do lar. Diante dos resultados avassaladores de candidaturas como a de Eduarda e a de Michele Bolsonaro, vi muita gente do campo progressista chamando de burras as mulheres que compram o discurso dessa ala antifeminista. Chamá-las de burras dificilmente vai convencê-las de qualquer coisa. O feminismo lutou e segue lutando por equidade, pela proteção e avanço da qualidade de vida e liberdade de escolha das mulheres. Mas precisamos saber comunicar melhor nossa luta, senão deixamos o caminho livre para que o patriarcado siga prometendo a falsa, porém sedutora, ideia de uma vida mais fácil em troca de autonomia. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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