"O Bosque Selvagem", o novo longa em stop-motion dos estúdios Laika, parece uma contrarrevolução. Em mais um universo em que cresce o uso da inteligência artificial, a animação que chega aos cinemas nesta quinta-feira (29) valoriza um trabalho praticamente artesanal. Aqui, a descrição de "o trabalho mais ambicioso de nossa história" não configura um mero clichê. O longa que começou a ser gestado em 2013 e operacionalizado em 2020, ainda na pandemia, é um ponto fora da curva dos mesmos criadores do sucesso "Coraline e o Mundo Secreto", de 2009, inspirado no livro de Neil Gaiman. A história acompanha Prue, uma pré-adolescente esperta e madura, daquelas que não aparentam —ou não querem aparentar— ter a idade que têm. Ela ajuda os pais, uma dupla meio hipster, a cuidar de seu irmão, o bebê Mac. Até que o caçula é sequestrado por um bando de corvos e levado para um bosque com criaturas nada convencionais. Prue vê sua vida virar do avesso e, sentindo-se culpada por ter desobedecido a uma expressa ordem para não sair de casa com Mac, entra em uma saga atrás do irmão em uma selva que não conhece. É acompanhada do fiel escudeiro Curtis, um colega de escola que é quase a sua antítese, um menino inseguro, mas extremamente leal. Ela tem de enfrentar a vilã Alexandra, uma mulher que viu sua crueldade nascer de uma das maiores dores que se pode passar —perder um filho. "O Bosque Selvagem" é inspirado no livro "Wildwood", publicado em 2011 pelo músico e autor Colin Meloy, vocalista da banda indie The Decemberists. A história se passa em Portland, cidade de 630 mil habitantes no estado americano de Oregon, que impressiona por suas coníferas gigantes, sempre verdes, e também por seu ar hipster e misterioso. Nas livrarias locais, aliás, como a rede Powell's, que inclusive aparece no filme, esse é o gênero que domina as prateleiras: o mistério. A cidade é uma personagem central de "O Bosque Selvagem", que imita suas ruas e florestas. Vários elementos locais estão presentes na produção, até as feições indígenas, muito presentes na cidade. Os estúdios da Laika estão na área metropolitana de Portland, e daí vem o fascínio da equipe por finalmente representar a região no cinema. Antes do livro, a história agora se transformou em um filme em stop-motion que impressionou toda a sua equipe pela minuciosidade de detalhes, a busca incessante pela perfeição. Os números impressionam, e, ao se assistir à cena final na tela, é difícil ter a real dimensão do tamanho do esforço humano ali empregado. Para dar conta de animar o filme, mais de 230 bonecos dos personagens foram feitos. Eles têm uma tecnologia ímpar —seus pequenos corpos conseguem imitar até contrações musculares. Se cada personagem humano já foi extremamente trabalhoso, nada se comparou à grande águia, a General, que carrega Prue em parte de sua jornada, em uma das cenas mais complexas do filme. Foi necessário um ano para produzir o boneco do pássaro, que mede quase um metro do bico à cauda. Brad Schiff, o chefe de animação, diz nunca ter feito um boneco tão trabalhoso em sua carreira. Para que os personagens tivessem as expressões faciais tão verossimilhantes quanto possível, diferentes faces foram criadas para serem substituídas nos bonecos. Elas são armazenadas em centenas de caixas de plástico com divisórias. Mais de 142 mil faces foram impressas. Ainda mais impressionante é o trabalho do time de animadores. Com os bonecos em mãos, é preciso movimentá-los em um trabalho para o qual resiliência e insistência são ingredientes fundamentais. Até as pálpebras dos bonecos podem ser manipuladas com uma pequena pinça pelos animadores. Para fazer um segundo de filmagem, são necessários em torno de 24 movimentos do animador no boneco, mudando a posição de seus bracinhos, pernas, olhos, cabelo e roupa. Representante brasileiro na produção, o mineiro Thiago Calçado atuou como animador. Foi responsável por dar movimento aos cavalos da série, envolvidos em algumas das cenas de maior ação —e, portanto, de maior complexidade. Foi um pedido feito por ele próprio, que já havia animado quadrúpedes em outra produção e queria se aperfeiçoar no desafio. Entre outros trabalhos, ele fez parte da equipe de animação "Minhocas", de 2013, o primeiro longa em stop-motion produzido no Brasil. Mais recentemente, fez parte do "Pinóquio por Guillerme del Toro", lançado há quatro anos. Ele conta do esforço para a produção de cada cena. Por semana, de quatro a seis segundos de cena conseguiam ser produzidos, tamanha a demanda por detalhes. Calçado também descreve "O Bosque Selvagem" como uma produção ímpar. O filme se insere na esteira de uma série de produções de renome da Laika, a começar por "Coraline", a história da menina que periga ter seus olhos substituídos por botões em sua jornada para entender que nenhuma pessoa amada, nem um parente, nem um amigo, será perfeita. E que aprender a lidar com as características que não se gostam do outro é parte fundamental da vida. E "Kubo", de 2016, com a história do menino que, munido da força da mãe, de um amigo macaco e outro samurai, mergulha em uma jornada em busca da armadura mágica de seu falecido pai. O longa venceu o prêmio Bafta de melhor animação no ano seguinte. A produtora de Travis Knight teve todos os seus cinco primeiros longas indicados ao Oscar de melhor animação, ainda que não tenha levado a premiação em nenhum dos anos —"Coraline", "ParaNorman", "Os Boxtrolls", "Kubo" e "Link Perdido". Não há um membro da equipe que não espere indicação semelhante para "O Bosque Selvagem", que pode enfrentar produções gigantes como "Toy Story 5", da Disney-Pixar, e "A Ilha Esquecida", aposta da Dreamworks. Responsável pela adaptação do livro para filme, o britânico Chris Butler diz que Prue, a protagonista de feições sempre cansadas, mas de energia inesgotável, entende como funciona um conto de fadas, e a beleza de sua trajetória está justamente no fato de ignorar a perfeição ou a busca por estereótipos. Mas talvez a descrição mais fiel a essa protagonista tenha vindo da atriz Peyton Elizabeth Lee, que dá voz à Prue no original, em inglês. "Ela sabe muito bem quem é, mas perde parte de sua confiança quando é desafiada com o sequestro do irmão, e é assim que ela aprende, em um arco de maturidade e crescimento", diz ela à reportagem, que visitou os estúdios da Laika na costa oeste dos Estados Unidos alguns meses antes da estreia do filme. Logo que o trailer na versão em inglês foi divulgado, muitos falaram justamente sobre o aspecto artesanal da obra. "Gosto do fato de que o slogan diz 'das MÃOS que criaram Coraline'", disse um usuário no YouTube sobre a forma como a Laika introduz "O Bosque Selvagem". "Em uma época em que tantas animações estão migrando para conteúdos gerados por IA, é revigorante ver um projeto celebrando com orgulho os artistas e criadores por trás de cada quadro." A jornalista viajou a convite da Laika
No mundo da IA, novo longa em stop-motion 'O Bosque Selvagem' � todo feito � m�o
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