N�o h� mais clima para esquerda e evang�licos dialogarem nesta gera��o

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Evangélicos em geral não têm afinidade com a esquerda, mas Lula perdeu a oportunidade de dialogar com suas lideranças. É o que conclui meu interlocutor, pastor com abertura para votar no Partidos dos Trabalhadores e que acompanha de perto a cena política entre grandes líderes religiosos. Para detalhar as análises que ele fez, precisarei borrar —como se faz nas ciências sociais— a identidade desse interlocutor e vou chamá-lo apenas de Luís. Luís revela sua posição política apenas quando está entre amigos próximos e familiares. Sua preferência por Lula passa por uma reflexão religiosa. Ele argumenta que Lula não pode ser cobrado como evangélico, porque não se converteu —é um ímpio. A atitude do líder petista seria mais honesta que a de Bolsonaro, porque o ex-presidente instrumentalizou a religião. Para Luís, igrejas já tinham uma identidade política antiesquerda no passado. "Há 30 anos ouço pessoas falando abertamente nas igrejas contra China e Cuba", ele analisa, mas antes havia pluralidade: a pessoa de esquerda não era perseguida como passou a ser desde a eleição de 2018. Luís entende ser definitiva a ruptura entre líderes evangélicos e a esquerda. Mas poderia ter sido diferente se o PT tivesse cultivado relações —mesmo nos bastidores— desde o governo Lula 1. Bastaria o presidente ter demonstrado disponibilidade para se apresentar e escutar a liderança de igrejas influentes. Em vez disso, Lula e o PT escolheram a saída fácil. Preferiram falar com "os pastores deles". Preferiram ficar isolados entre nomes menos conhecidos, que já se identificam com pautas da esquerda —em relação, por exemplo, a aborto e a casamento homoafetivo. Se a interlocução tivesse acontecido, o partido teria sido capaz de se blindar de ataques de radicalizados, Luís conclui. Poderia hoje buscar essa liderança para dissolver o sentimento antiesquerda.Agora é tarde. O território do cristianismo já está controlado por agentes bolsonaristas. Eles policiam o debate público e atacam dissidências de forma a apagá-las. A pessoa deixa de ser convidada para pregar ou se apresentar na igreja. Significa que essa pessoa morre socialmente entre evangélicos. É um comportamento de manada que detona reputações. Esse foi o tratamento dado a qualquer nome que se pronunciou contrário a Bolsonaro nas últimas eleições. Carreiras de pastores e músicos foram arruinadas. Apesar disso, Luís avalia que Lula tem uma bala de prata para esta eleição: proibir ou limitar o efeito das bets, vistas como destruidoras de famílias. Mas o impacto será restrito, ainda mais pelo azedamento dos ânimos após o 8 de Janeiro. A decisão de Lula sobre bets pode convencer, mas apenas a franja de quem já está propensa a rejeitar Flávio Bolsonaro. A redenção, Luís pondera, pode vir na geração seguinte. Políticos de esquerda como Tabata Amaral estão desbravando território ao incorporar o debate sobre fé em sua comunicação. Fora esses novos agentes, não há espaço para diálogo com a esquerda. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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