No CCBB SP, 'Confuzo' transforma exaust�o f�sica em poesia c�nica

No CCBB SP, 'Confuzo' transforma exaust�o f�sica em poesia c�nica

Há quase trinta anos, a Cia. Dos à Deux vem construindo uma linguagem própria, na qual o corpo silencioso é o que mais diz. Em "Confuzo (está escurecendo dentro de mim)", porém, essa trajetória feita de gestos precisos e invenções visuais abre espaço para algo novo: pela primeira vez, a palavra falada ocupa o centro da cena. Mas isso não é um desvio. A voz só aparece quando o corpo já chegou ao seu limite, quando a musculatura não consegue mais articular o que sente. O texto, sem enfeites, funciona como uma extensão da respiração. Nasce do cansaço dos atores, filtrado pela recusa de qualquer excesso. O espaço cênico se constrói a partir da convivência tensa entre duas figuras solitárias. De um lado, André Curti é o Homem-Árvore, que arrasta uma estrutura de galhos secos. O peso real desses galhos muda o eixo de seu caminhar, transformando a busca por fixação numa marcha pesada sobre terra árida. A imagem carrega o drama antigo do desterro, a dor de levar a própria raiz por lugares que negam abrigo. Do outro lado, Artur Luanda Ribeiro é o Homem-Luz, condenado a pedalar sem parar uma bicicleta mecânica que funciona como um dínamo artesanal. É o esforço de suas pernas que mantém o palco iluminado: se elas vacilam, as lâmpadas enfraquecem e a penumbra avança. Iluminar o outro custa o esgotamento de si — a mecânica do trabalho que não para e vai drenando a vida. Essa engrenagem dá à iluminação uma vulnerabilidade que se pode sentir. A luz não é algo fixo, técnico, mas oscila no ritmo do coração e do suor do ator. As sombras que se projetam no espaço e os figurinos de Karen Brusttolin, misturados à terra e ao metal, criam uma atmosfera onde nada sobra. Em diálogo com essa máquina analógica, o desenho sonoro de Federico Puppi intercala notas de violoncelo, texturas metálicas e silêncios densos — nos quais os únicos sons que preenchem a sala são o estalo das correntes e o arfar dos corpos. Nascida das travessias dos criadores pela Europa e pela América Latina, a montagem transforma a experiência de viver na fronteira numa reflexão sobre a recusa ao diferente e o cansaço do nosso tempo. O escurecimento do título nos convida a desacelerar o olhar: na penumbra que se instala quando o corpo já não aguenta ficar acordado, talvez seja possível enxergar o que a pressa do mundo insiste em apagar. "Confuzo" faz da matéria viva do palco e do atrito da carne a sua afirmação mais lúcida. Persistir é o mais urgente ato de poesia. Três perguntas para… … André Curti Como o peso real dos galhos alterou o ritmo da sua respiração e determinou o momento exato em que o corpo precisou virar palavra? Acho que o peso dos galhos nunca foi uma metáfora. O peso existe, real, existe de fato sobre o corpo, alterando o eixo, comprimindo a coluna, pesando no pescoço, exigindo também uma maestria no equilíbrio. E é pesada (risos). Isso me levou para escolhas físicas muito ligadas à lentidão, à retenção do movimento, e a respiração deixou de ter seu ritmo natural mas passou a ser determinada por essa árvore que carrego na cabeça. Ela ficou mais curta, mais densa, mais suspensa. No nosso trabalho o gesto, o corpo sempre foi motor, mas sempre estamos nos reinventando e experimentando. A palavra surge não porque o corpo não é mais suficiente para contar uma história, mas ela vem como um grito de força, uma necessidade de expressar de outra forma, de somar aos corpos e aos silêncios. Depois de quase trinta anos de pesquisa no silêncio, qual foi a sensação de finalmente romper o hermetismo e falar em cena? Não sei se falaria em romper um hermetismo, porque acredito que nosso trabalho nunca buscou ser hermético. Acredito que mesmo sem palavras, sempre houve uma tentativa de comunicação muito direta com o público, através do corpo, das imagens, da emoção e da poesia da cena. Somos contadores de histórias. Acredito que o que acontece em "ConfuZo" é menos uma ruptura e mais uma ampliação da linguagem. Como disse acima a palavra vem somar. Sentimos que depois de quase trinta anos investigando o silêncio, algumas questões pediam também a presença da palavra. Não tentando explicar o que já existia, mas como mais uma camada de escuta e de relação com o espectador. Acho que ela se tornou necessária no universo específico dessa obra. Estamos muito felizes com essa nova experiência, desafiadora e instigante. O Homem-Árvore reflete o desterro de quem não encontra solo para criar raízes. O quanto essa figura dialoga com a sua própria vivência de artista entre dois continentes? Essa profunda sensação de deslocamento, do desterro, como você diz, da busca por um lugar onde seja possível criar raízes, que esse meu personagem busca o tempo todo, traduz sim essa minha sensação de ter vivido mais de trinta anos em Paris, e ter tentado criar raízes numa terra que não era minha, sem perder minhas raízes que vêm de outros lugares. O fato de viver e trabalhar entre duas culturas trouxe uma riqueza enorme, com certeza, mas acho que também traz a sensação de nunca pertencer inteiramente a um único território. E nosso trabalho nasceu justamente do encontro de várias origens. Sempre digo que quando somos imigrantes, temos dois corações, um lá e outro cá! E nunca sabemos se estamos indo ou voltando pra casa. Sempre penso isso no voo entre Brasil e França. Mas diferente do meu personagem, eu fui aceito nessa outra terra. Em "ConfuZo", o personagem vive essa experiência de maneira bem mais radical: ele não consegue pertencer justamente porque sua diferença o coloca sempre na situação de excluído. E eu acredito que consegui ao longo dos anos criar raízes lá sem deixar de preservar as raízes que já existiam aqui, no Brasil. Acho que não se trata apenas de estar entre dois lugares, mas de pertencer, de maneiras diferentes, aos dois. Três perguntas para… … Artur Luanda Ribeiro A luz do palco depende do seu fôlego na bicicleta. Como é lidar com a perda de controle técnico diante do cansaço real do corpo? Acho que o perigo, neste espetáculo, está menos na perda do controle técnico físico e mais na quantidade de mecanismos que preciso realizar simultaneamente. Sou um ator-performer que, fora de cena, se exercita diariamente justamente para não perder esse controle. Em "ConfuZo", o desafio está sobretudo em manter um estado de presença absoluto, porque precisa ser, minuciosamente, parte do próprio ritmo do espetáculo. A luz depende de mim, do meu corpo, do meu fôlego, da minha capacidade de permanecer presente. O esforço de pedalar sem trégua para manter o espaço aceso funciona como metáfora da exaustão moderna. Essa crítica surgiu da mecânica do aparelho ou da dramaturgia? Surgiu da dramaturgia. A árvore e a bicicleta foram os dois primeiros objetos colocados lado a lado em cena. Nossa dramaturgia quase sempre nasce assim: a partir dos objetos. Nós não os tratamos simplesmente como elementos cenográficos. Para nós, eles são personagens. A bicicleta já carregava a ideia de esforço, de produção de energia, de permanência. Era preciso pedalar para que alguma coisa continuasse existindo. A dramaturgia foi se construindo a partir dessa relação entre o corpo, o objeto, o desgaste e a necessidade de continuar. Como a parceria artística entre você e o André se transformou ao trocar a precisão milimétrica do gesto pela exposição crua do esgotamento físico? Acho que a precisão milimétrica continua absolutamente presente.Talvez a diferença seja que, nos espetáculos anteriores, o esforço físico e até mesmo a exaustão estavam, de alguma maneira, escondidos dentro da construção da cena. Nesse espetáculo estamos muito mais expostos. A iluminação está exposta, os mecanismos estão expostos, os objetos estão expostos, os gestos estão expostos. Até a nossa contracenação, que é muito sensorial, acontece diante dos olhos do público, sem esconder seus procedimentos. Tudo está à vista. A ilusão, desta vez, não está necessariamente no que escondemos, mas naquilo que o olhar de quem assiste consegue construir a partir do que vê. Centro Cultural Banco do Brasil – Rua Álvares Penteado, 112, Centro Histórico. Quinta e sexta, 19h. Sábado e domingo, 18h. Até 18/10. Duração: 65 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 15 (meia-entrada) em https://ingressosccbb.com.br/cidades/sao-paulo-sp LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.