[RESUMO] Aos 84 anos, a cientista política e professora emérita da USP Maria Victoria Benevides é indicada ao prêmio internacional Zayed para a Fraternidade Humana por sua atuação de quase cinco décadas na área dos direitos humanos. Figura histórica do PT, ela lamenta que o partido tenha deixado de lado o trabalho de base e teme pela restrição das liberdades em um eventual governo Flávio Bolsonaro. A cientista política Maria Victoria Benevides se lembra bem do dia 10 de fevereiro de 1980, quando aconteceu o evento de fundação do Partido dos Trabalhadores, em São Paulo. Chegou sozinha à cerimônia no colégio Sion, em Higienópolis, mas logo encontrou um amigo do Rio de Janeiro, o psicanalista Hélio Pellegrino. Juntos, acompanharam o ato, que tinha no palco personalidades de diferentes perfis. Estavam lá nomes como a atriz Lélia Abramo, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, o crítico de arte Mário Pedrosa e o líder camponês Manoel da Conceição. Entre os sindicalistas, um homem de barba negra espessa, que estava à frente dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo desses 46 anos, a professora aposentada da USP foi convidada algumas vezes para exercer funções em governos do PT, como na prefeitura de São Paulo sob Luiza Erundina, entre 1989 e 1993. Preferiu se manter distante dos cargos públicos, mas sempre participou das atividades do partido. Aos 84 anos e ainda filiada ao PT, Maria Victoria expressa admiração pela trajetória e pelas conquistas da sigla. Indica, porém, transformações profundas pelas quais o partido passou nesse quase meio século de existência. Para ela, uma dessas mudanças se revela determinante para que o desempenho de Lula no primeiro turno da disputa presidencial deste ano tenha ficado bastante aquém das expectativas petistas. "Concordo com a opinião de nomes como Frei Betto e André Singer. O trabalho de base foi esquecido pelo PT. Não adianta ter intelectuais e artistas famosos ligados ao partido, como Chico Buarque e Caetano Veloso", afirma. "Sou do tempo em que havia grupos de bairro, que são poucos hoje em dia. O que prevalece é a política oficial dos cargos burocráticos. Não digo que essa política não deva ser feita, mas é preciso cultivar a seiva que reside na participação popular." Para enfatizar a força dessas iniciativas comunitárias, cita o Movimento de Saúde da Zona Leste, uma iniciativa encabeçada por mulheres na São Paulo dos anos 1970. Aquela foi, segundo a professora, "a primeira sementinha" do que viria a ser o SUS (Sistema Único de Saúde) no final da década seguinte. Mas Maria Victoria não se restringe aos exemplos do passado. Cita um segmento que se expande e se distancia cada vez mais da esquerda, os evangélicos. "Algumas igrejas evangélicas fazem esse trabalho de base, com uma entrada forte e constante na vida das pessoas. Minha faxineira dizia que quando era católica, ia à missa e ninguém sabia o nome dela. O padre não a cumprimentava. Foi para uma igreja evangélica, onde logo passou a fazer parte de um grupo de mulheres. Quando o culto acaba, o pastor fica na porta, cumprimentando um por um e perguntando como anda a vida das pessoas." A cientista política sabe do que fala quando se refere às religiões. Nascida em Niterói, com a maior parte da infância passada no Rio, teve formação católica, com três tias freiras. Sua religiosidade ganhou novas feições com o passar do tempo, mas "continua sendo cristã", ligada às pastorais da Igreja Católica, como a operária e a carcerária. Em 1978, em meio à ditadura militar, Maria Victoria foi convidada a integrar a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, que ganhou projeção na defesa dos direitos humanos graças, sobretudo, ao trabalho do arcebispo dom Paulo Evaristo Arns. Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias A socióloga Margarida Genevois e o advogado e jurista Fábio Konder Comparato foram os responsáveis pela sua indicação para o grupo. "Margarida, que sempre exerceu liderança na área dos direitos humanos, é minha grande inspiração", ela fala sobre a amiga, hoje com 103 anos. "Dom Paulo tinha absoluta confiança nela. Em muitas ocasiões, para surpresa e até desconforto da hierarquia católica, ele enviava Margarida para representá-lo em eventos no exterior." A partir do ingresso nessa comissão, passou a se envolver cada vez mais tanto na defesa quanto na análise dos direitos humanos —a um só tempo, uma ativista e uma estudiosa. Além de livros que se firmaram como referências na ciência política do país, como "A UDN e o Udenismo - Ambiguidades do Liberalismo Brasileiro" (1981), resultado do seu doutorado, ela publicou obras que refletem sobre aspectos vulneráveis do cotidiano da população brasileira, como "Violência, Povo e Polícia" (1983) e "Direitos Humanos, Democracia e República" (2009). Democracia e direitos humanos foram temas constantes do seu trabalho de 27 anos na Faculdade de Educação da USP, período em que atuou na graduação e na pós-graduação. Tornou-se professora emérita da faculdade em 2023. Durante uma aula, um aluno perguntou a ela como definia dignidade. "Respondi que podemos não saber definir exatamente o que é dignidade, mas sabemos identificar com clareza a indignidade. São situações como a dos doentes que apodrecem nas filas de ambulatórios, das mulheres que sofrem violência doméstica, das crianças vendendo coisas na rua em vez de estar na escola", lembra. Sua atenção aos direitos humanos não se deu apenas no campo universitário. Nas últimas décadas, participou de diversas atividades de formação em bairros da periferia de São Paulo, como os encontros no Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Cimento, Cal e Gesso, em Perus, na zona norte da cidade. Atualmente, além da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo e da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), integra a Comissão Arns, da qual foi presidente de 2024 a julho deste ano. "Na comissão Arns, não temos poder decisório, mas contamos com meios para atingir as autoridades pertinentes a cada caso. Temos bom trânsito, por exemplo, com a Defensoria Pública do Estado de São Paulo." Ela participa ainda da Comissão de Direitos Humanos da USP e do conselho consultivo do Instituto Vladimir Herzog. "Às vezes, me dizem: ‘você já está velha, por que ainda se mete nessas reuniões?’ Digo que minha cabeça continua funcionando e estou pensando nas minhas cinco netas, com idades que vão de 13 a 30 anos, e nos jovens em geral. Qual futuro nós vamos deixar para eles?" Por essa trajetória dentro e fora do ambiente acadêmico, Maria Victoria foi indicada ao prêmio internacional Zayed para a Fraternidade Humana. A honraria foi criada em 2019 durante um encontro do papa Francisco com o xeque Ahmed al-Tayeb, imã da mesquita de Al-Azhar e reitor da universidade de mesmo nome, ambos no Cairo, capital do Egito. Desde que foi criado, o Zayed já reconheceu personalidades de áreas como saúde, sustentabilidade e apoio aos refugiados. Na sua edição mais recente, o prêmio foi entregue aos responsáveis pelo acordo de paz entre Azerbaijão e Armênia; à Taawon, organização de apoio à Palestina; e a Zarqa Yaftali, defensora dos direitos das mulheres afegãs. A indicação da cientista política brasileira se deu graças a uma mobilização da USP e, nas últimas semanas, ganhou apoio de entidades, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e grupos, como Judias e Judeus pela Democracia - São Paulo. Os nomes dos laureados serão divulgados no início do ano que vem. Para Maria Victoria, a indicação é um registro positivo em meio a muitas inquietações com os rumos do país. O noticiário recente sobre o poder Judiciário provoca indignação na professora, recentemente convidada para integrar o Observatório do STF, grupo formado por docentes da USP, como Walnice Nogueira Galvão e Paulo Sérgio Pinheiro, e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), como Eloisa Machado. "É grave o STF se ocupar de discussões sobre arranjos pessoais em vez de se concentrar em grandes questões jurídicas. Os contatos espúrios de ministros do Supremo com o grande capital levam a um descrédito da instituição. A Constituição ficou esquecida", diz, em referência às relações de juízes e de seus familiares com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob a acusação de liderar um esquema de fraude estimada em R$ 12 bilhões. No entanto, mais do que o enfraquecimento do STF, Maria Victoria se preocupa com um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Para ela, a liberdade em vários níveis —pessoal, de associação, de sindicalização— pode ser tolhida. "Pode vir uma repressão feia em cima de sindicatos e estudantes." Também teme pelo destino das populações indígenas se o candidato do PL sair vitorioso no segundo turno. "Já ouvi de gente da USP que, no Brasil, há terras demais para poucos indígenas. Imagine como pensam e agem os bolsonaristas", afirma. De acordo com o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), que monitora os dados sobre os povos originários há mais de duas décadas, os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro mais do que sextuplicaram os episódios de conflito envolvendo terras indígenas em comparação com os quatro anos anteriores, durante as gestões de Dilma Rousseff (PT) e de Michel Temer (MDB). Na educação, a angústia dela diz respeito à expansão das escolas cívico-militares, proposta que consta no programa de Flávio Bolsonaro. "Educação militar não combina com educação democrática. O princípio da escola militar é a hierarquia e a obediência, enquanto o princípio da escola democrática é a ampliação do conhecimento e o respeito às individualidades", afirma. JK e a esperança "O Governo Kubitschek - Desenvolvimento Econômico e Estabilidade Política" é, provavelmente, a publicação mais influente de autoria da cientista política. Como mostrou a revista Pesquisa Fapesp, a ideia nasceu de uma conversa dela com o marido, Paulo Benevides Soares (1939-2017), engenheiro, astrônomo e também professor da USP, com quem teve três filhos. Foi ele quem sugeriu a Maria Victoria que se dedicasse ao período JK para o mestrado, cuja orientação foi de Francisco Weffort. A defesa da dissertação aconteceu em novembro de 1975 em uma sala lotada, com a presença de intelectuais como o sociólogo Florestan Fernandes e o crítico literário Antonio Candido. A tese resultou no bem-sucedido livro lançado em 1976. Durante a pesquisa, ela havia conseguido, entre dezenas de entrevistas, falar com o próprio Juscelino. "Fui o único presidente civil depois do Estado Novo [1937-1945] que governou de acordo com a Constituição", afirmou JK. São grandes os temores da professora de que Flávio, sendo vitorioso, não esteja disposto a conduzir o país de "acordo com a Constituição". Ainda assim, ela mantém suas convicções vivas, sem perder o ânimo. "Há um pecado mortal na vida política, que é a perda da esperança. É preciso entusiasmar a juventude." E como fazer isso? "No meio de um pacote de problemas, precisamos mostrar ao menos um ponto que esteja bom. Vou dar um exemplo bem pessoal. No Rio, fiz campanha para a Nísia Trindade, que fez um ótimo trabalho como ministra da Saúde, enfrentando a necropolítica do governo Bolsonaro durante a pandemia. Ela foi eleita." Ao longo de uma hora e meia de entrevista na quarta-feira, dia 7, em seu apartamento em São Paulo, a memória de Maria Victoria rateou uma única vez. A boa saúde permite que ela continue trabalhando —além de todas as comissões das quais faz parte, é convidada com frequência para participar de bancas de mestrado e doutorado. Ainda assim, os 84 anos têm um peso. "Fico pensando: ‘ai meu Deus, será que vou passar meus últimos anos com um governo Bolsonaro?’ Tomara que não, mas se isso acontecer, vou morrer brigando."
N�o adianta ter artistas se o PT esqueceu trabalho de base, diz nome hist�rico da sigla
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