Segunda-feira. Abro o computador pela primeira vez após a desconexão do mundo proporcionada pelo primeiro fim de semana de sol e calor depois de um mês de dilúvio no Rio de Janeiro. O site da Folha abre automaticamente assim que clico no browser. Para minha surpresa, quem ocupa o destaque do noticiário do dia não é Lula nem Flávio Bolsonaro, nem Xandão, nem KN. A protagonista das chamadas do dia na home do jornal é ninguém mais, ninguém menos do que Nossa Senhora Aparecida. Checo outros veículos e vejo o mesmo padrão se repetir. A menos de uma semana das eleições, só se fala na santa. A esta altura provavelmente você já sabe do imbróglio. Alguém disse que Flávio ia destronar Nossa Senhora como padroeira do Brasil, um aceno ao eleitorado evangélico do qual Flávio tanto precisa. O boato se espalhou pelas redes, e teve até ateu disposto a defender a santa se isso significasse colocar o prego final no caixão da família Bolsonaro (esta colunista incluída). Flávio se defendeu, publicou vídeos negando que pretendesse retirar o título da santa, mas sua acusação à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de ter ajudado a espalhar a história não ajudou. A campanha de Lula, por outro lado, aproveitou o bonde, com Janja publicando uma foto do presidente com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e Alckmin compartilhando um vídeo sobre a preservação das tradições católicas. A notícia sobre a santa era falsa, mas não foi por acaso que viralizou. O boato não surgiu do nada: encontrou terreno fértil numa família que há anos mistura política e religião com um discurso voltado justamente para o público evangélico. Em 2022, aliados de Jair Bolsonaro espalharam a fake news de que Lula fecharia todas as igrejas. Semanas atrás, Flávio disse "Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo", ignorando a fé de milhões de brasileiros praticantes de outras religiões e também dos milhões de brasileiros que acreditam num estado laico. Mas o que mais me incomoda em toda essa história é, mais uma vez, ver essa corrida eleitoral ser cooptada por assuntos que pouco impactam a vida de quem realmente deveria estar no centro do debate: a mulher comum. Aquela que é chefe de família, aquela que sofre violência em casa, aquela que cria os filhos sozinha, aquela que ganha menos do que seu colega que exerce a mesma função, aquela que tem que deixar os filhos com a vizinha para trabalhar porque não tem vaga de creche, aquela que se endividou para conseguir pagar as contas. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres Mulheres são a maioria do eleitorado, são também as mais afetadas por crises econômicas, as mais vulneráveis e, portanto, mais dependentes de políticas públicas. É pensando nessa mulher que precisamos avaliar o cenário político, que precisamos avaliar quem irá representar melhor os nossos interesses. E aí a resposta deveria ser óbvia: temos uma direita radical que questiona o nosso direito ao voto, que não acredita em representatividade, que apoia leis que revitimizam vítimas de estupro, que diminuem nossas lutas a "mimimi". O outro lado está longe de ser perfeito, mas trabalha dentro do campo democrático, acredita nas mudanças climáticas e acredita em políticas públicas de proteção à mulher e correção das desigualdades de gênero. As mulheres no Brasil precisam de um milagre, mas o campo progressista não deveria precisar de uma santa para conquistá-las. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
N�o � a santa que deveria estar no centro do debate eleitoral
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