Ningu�m quer falar de clima, nem o candidato � Presid�ncia

Ningu�m quer falar de clima, nem o candidato � Presid�ncia

Descobri a gravidade da emergência climática em um domingo em 2019, lendo uma matéria na Piauí. Nunca esqueço o impacto: quando levantei da poltrona em que lia a revista foi como se o mundo, tal qual eu conhecia, tivesse acabado de se extinguir. A partir desse dia, apavorada com as perspectivas, botei a bíblia do clima debaixo do braço e saí por aí tentando converter e catequizar outros crentes. Muita gente já vinha tentando fazer isso, há muito mais tempo e com muito mais impacto ou eloquência. Como o cientista Jimmy Hanson que, em 1988, fez uma fala histórica no Congresso dos Estados Unidos, explicando a um dos países que mais emite carbono a gravidade do que vinha pela frente. Ou como David Buckel que, em 2018, tomou a decisão radical de atear fogo ao próprio corpo com gasolina a fim de chamar a atenção para o poder destrutivo dos combustíveis fósseis. Eu, com meu nanico poder da palavra, também tentei chamar a atenção. Além de importunar amigos em festinhas com essa conversa e parar de comer carne só para me perguntarem "por que parou?", passei a escrever sobre clima em coletâneas, na plataforma Fervura e depois aqui, neste espaço. Logo percebi que bastava colocar o termo "mudança climática" no título para que o número de interessados caísse. Por um tempo, fiz como as mães de criança que escondem a verdura dentro de bolinhos para o filho comer: eu botava o brócolis do clima no meio do texto para ver se atraía o leitor. Quando aconteceu aquele incêndio em Los Angeles, mostrando que nem as estrelas de cinema estavam salvas, pensei: agora o assunto emplaca. Mas, mesmo com esse episódio lamentável, a conversa não perdurou na mídia, nem nas mesas de bar. Logo aceitei que as pessoas preferem falar sobre relacionamentos, futebol ou até mesmo feminismo a falar de clima, mesmo que o mundo lá fora esteja pegando fogo, e este fogo, de uma forma ou de outra, vá atingir a todos. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Tentei entender o porquê. Conversando com alguns jornalistas e cientistas, compreendi que o assunto é tão alarmante que a maioria prefere entrar em modo de negação. Outros, se abstém para não se afligirem, já que não sabem o que fazer. Ou não têm paciência para a complexidade do tema. E, no caso do Brasil, a maioria está muito mais preocupada em ganhar o pão de amanhã do que em calcular o que vai acontecer na próxima semana, ano ou década, mesmo que isso vá afetar diretamente as suas vidas. Os meios de comunicação também não ajudam. Apesar do agravamento da crise, a cobertura global sobre a questão climática caiu 38% desde 2021. No Brasil, o assunto ainda está longe de ocupar o espaço que merece. Em entrevista ao Jornal Nacional, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro chegou a dizer que eventos extremos são cíclicos e não apresentou nenhum plano de mitigação ou enfrentamento, sugerindo apenas, como solução um tanto disparatada, saneamento básico. Para quem leva o assunto a sério, a transição energética pode ser ágil e rentável. Os australianos, por exemplo, já caminham a passos largos para a auto suficiência em energia limpa. E não me deixam perder a esperança. E nem a teimosia: olha eu aqui assando o bolinho de brócolis outra vez. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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