Netanyahu usou a for�a para remodelar o Oriente M�dio e isolou Israel em 19 anos no poder

Netanyahu usou a for�a para remodelar o Oriente M�dio e isolou Israel em 19 anos no poder

Os eleitores israelenses optaram por dar mais votos ao bloco de oposição ao primeiro-ministro Binyamin Netanyahu nas eleições desta terça-feira (27), segundo pesquisas de boca de urna. Entretanto, não está claro se o líder opositor Gadi Eisenkot será capaz de formar um governo, o que deixa Netanyahu no poder por enquanto, e o país em compasso de espera. Netanyahu é o líder mais longevo da história de Israel. Nem mesmo o pai fundador do país, David Ben-Gurion —envolvido no movimento de guerrilha que levou à criação do Estado judaico— esteve mais tempo à frente do governo: foram 12 anos, ante 19 do atual primeiro-ministro. Ao longo de quase duas décadas, Netanyahu acumulou poder em seu partido, o Likud, para se tornar o líder indiscutível da direita israelense —campo político que, naquele país, tem menos a ver com defesa de políticas econômicas liberais e mais com oposição ferrenha a um Estado palestino e a uma solução negociada para o conflito. Ele usou seu período no poder e as capacidades militares de Israel para, nas suas próprias palavras, "remodelar" o Oriente Médio, no que foi bem-sucedido. Quando chegou ao cargo de premiê pela primeira vez, o conflito israelo-palestino, que define boa parte da história da região no pós-guerra, parecia se encaminhar para o fim, com a assinatura dos Acordos de Oslo. Hoje, a ideia de um Estado palestino, a despeito de seu reconhecimento por boa parte da comunidade internacional, está mais distante da realidade do que nunca. Gaza tem quase 70% do seu território sob ocupação, está em ruínas e sem um governo capaz de prover serviços básicos à população; a Cisjordânia, por sua vez, viu nestes 19 anos de Netanyahu no poder uma expansão sem precedentes de assentamentos judaicos ilegais. Até junho de 1996, Israel tinha um premiê —Shimon Peres— laureado com o Nobel da Paz por sua atuação nas negociações de Oslo; hoje, o ocupante do cargo possui um mandado de prisão emitido pelo TPI (Tribunal Penal Internacional) e é acusado de genocídio por organizações internacionais. Por fim, nos últimos três anos, o país esteve envolvido em guerras ou realizou operações militares em Gaza, Cisjordânia, Líbano, Síria, Qatar, Iêmen e Irã. Como saldo, Netanyahu destruiu, em grande medida, a capacidade do Hamas, do Hezbollah e de outros grupos apoiados pelo Irã de ameaçar Israel; viu o fim da era da família Assad na Síria, substituído por um governo frágil e mais vulnerável a pressões militares israelenses; e conseguiu atingir um objetivo de décadas da diplomacia de seu país, qual seja, estar em guerra contra o regime iraniano ao lado dos Estados Unidos. O preço que pagou para isso, além das dezenas de milhares de vidas perdidas nas guerras que iniciou, foi um isolamento inaudito de Israel no cenário internacional. Desapareceu a possibilidade de que países da região, como a Arábia Saudita, reconheçam o Estado judeu, como fizeram Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Marrocos e Sudão no âmbito dos Acordos de Abraão; aliados de décadas na Europa, como a França, a Espanha e o Reino Unido, viraram as costas para o governo Netanyahu, e mesmo nos EUA, maior fiador militar e diplomático de Tel Aviv, o apoio automático deixou de ser consenso em um dos dois partidos que dividem o poder em Washington —fato que pode ter consequências existenciais para Israel se e quando um democrata voltar à Casa Branca. Ex-soldado das forças especiais israelenses e ex-diplomata nos EUA, Netanyahu se tornou chefe de governo pela primeira vez em 1996, quando derrotou Shimon Peres. Aquela eleição ocorreu em meio a uma onda de ataques terroristas do Hamas em retaliação ao assassinato do então líder do grupo, cometido pelo Shin Bet, serviço de segurança interna de Israel. Naquele ano, Netanyahu tinha como principal mote de campanha a oposição aos Acordos de Oslo, assinados entre 1993 e 1995 por Yitzhak Rabin —o antecessor de Shimon Peres, morto no cargo por um extremista judeu que também se opunha ao texto. No poder, Netanyahu diminuiu o ritmo das negociações com o líder palestino Yasser Arafat, mas acabou perdendo apoio da direita por concessões feitas aos palestinos e do eleitorado em geral após ser denunciado em casos de corrupção —tema que o acompanharia ao longo de sua carreira. Ele perdeu as eleições de 1999 para Ehud Barak. Netanyahu voltaria ao cargo em 2009, beneficiando-se de investigações de corrupção contra o primeiro-ministro à época. Só sairia do poder 12 anos depois, sobrevivendo a cinco eleições e chefiando quatro coalizões. No período até 2016, quando o ocupante da Casa Branca era Barack Obama, Netanyahu buscou agradar o democrata com sinalizações a uma negociação com palestinos enquanto aprovava expansão de assentamentos ilegais. Também foi um ferrenho opositor do acordo nuclear negociado por Obama com o Irã, afirmando que Washington havia cedido demais para obter pouca coisa em troca. Durante o primeiro mandato de Donald Trump, Netanyahu aprofundou seu alinhamento com o movimento global de direita representado pelo republicano e obteve dele importantes concessões, como o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e o fim do acordo nuclear com Teerã. Também acelerou a expansão de assentamentos na Cisjordânia, com protestos menos frequentes de Washington. Após curto período fora do poder, Netanyahu formou um governo em dezembro de 2022 com apoio do partido de extrema direita Poder Judaico, de Itamar Ben-Gvir. O início de seu novo mandato foi marcado por uma tentativa de reforma judicial, considerada por opositores um ataque à independência da Justiça de Israel, e pelos enormes protestos de rua contra a medida. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Se o governo de Netanyahu, pressionado pelas manifestações e pelas acusações de corrupção contra ele, parecia prestes a ruir, o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023 fortaleceu a posição do primeiro-ministro como nunca antes. Com a necessidade de defesa nacional acima de todas as outras, e o trauma dos 1.200 mortos e centenas de reféns ditando a resposta da sociedade israelense, Netanyahu permaneceria no poder e conduziria a guerra na Faixa de Gaza. De acordo com uma série de especialistas e organizações internacionais, Israel, sob o governo de Netanyahu, cometeu genocídio e outros crimes de guerra contra os palestinos durante o conflito, que matou mais de 74 mil pessoas no território.

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