Negro Leo re�ne 14 anos de experimenta��o em colet�nea de selo brit�nico

Negro Leo re�ne 14 anos de experimenta��o em colet�nea de selo brit�nico

Nos 14 anos desde seu primeiro lançamento, "The Newspeak", de 2012, o artista maranhense Negro Leo passou por todo o tipo de sonoridade —de baladas de violão a faixas dançantes de batida eletrônica, de canções românticas num inglês rudimentar a longas letras que fazem piruetas com a língua portuguesa. No mês passado, a trajetória do artista ganhou uma retrospectiva na compilação "White Elephant", lançada pelo selo britânico Hive Mind. Em 27 faixas e mais de uma hora, a coletânea, lançada em vinil duplo e edição limitada, reflete a facilidade do artista em transitar entre gêneros sem perder a coesão ao juntar suas faixas em ordem não cronológica. Da ruidosa "Coisado", lançada no álbum homônimo de 2017, pula para a sensual "Me Ensina a Te Castigar", faixa pop embebida em Auto-Tune de "Rela", de 2024, e desemboca na psicodélica "Makes e Fakes", do comicamente intitulado álbum "Desejo de Lacrar", de 2020. "Eu sou um cara que ouço de tudo. Eu não tenho limitação, minha cabeça funciona quase como uma colagem. Do Felipe Amorim ao Stockhausen. Tudo tem sua forma de existir, tudo é uma expressão possível", diz o artista. Oriundo da cena experimental carioca –Leo nasceu em Pindaré-Mirim, no Maranhão, mas se mudou para o Rio de Janeiro aos dois anos de idade–, ele é casado com a cantora e cineasta Ava Rocha. Foi através do álbum "Trança", lançado por Rocha em 2018 com participações de Leo, que o trabalho do músico chegou até Marc Teare, diretor criativo da Hive Mind. "Fiquei impressionado com a incrível variedade de sons e estilos com os quais ele trabalha. Ao me aprofundar, me fascinei pela maneira como ele aborda política e questões sociais –de forma lúcida, poética e bem-humorada", afirma Teare. A ideia de uma compilação surgiu quando Teare entrou em contato com Bernardo Oliveira, do selo carioca QTV, responsável pelo lançamento dos primeiros álbuns de Leo. Oliveira e Teare fizeram, juntos, a escolha do repertório de "White Elephant". A QTV, e a própria carreira do artista, surgiram num momento especialmente frutífero da música experimental carioca. Junto à gravadora independente, se formaram outros pilares da cena undeground daquele período, por volta do começo dos anos 2010 –o festival Novas Frequências, a casa de shows Audio Rebel, em Botafogo, e outros selos, como Desmonta e 40% Foda/Maneiríssimo. "A gente estava nadando nas águas do estado de bem-estar social –uma geração imensa que pôde experimentar isso pela primeira vez", diz Leo. "Esse período, que vai de 2010 a 2016, foi fundamental." O artista fala de uma infância marcada pela circulação entre diferentes universos sociais. Filho de uma mãe migrante e de um pai criado na favela, ele identifica nessa formação sua perspicácia para discorrer sobre as desigualdades brasileiras. Não é difícil identificar uma coerência de temas em "White Elephant". Apesar das eventuais baladas românticas, o comentário político de Leo é o fio condutor central, e aparece carregado de humor, referências ao discurso das redes sociais e interferências tecnológicas. "Sou movido sempre pelos mesmos temas, não tenho a menor dúvida. Minha formação é contraditória, e não sei o quanto esses dados biográficos aparecem nas letras, mas certamente aparecem indiretamente nas reflexões poéticas", diz ele. Teare destaca, em sua discografia, os álbuns "Desejo de Lacrar" e "Rela" –o segundo levou ele e Bernardo Oliveira a reorganizar a tracklist de "White Elephant" para incluir músicas do novo disco. "O objetivo do álbum é tentar apresentar o Leo como um artista contemporâneo importante a um público internacional. Espero que as pessoas se sintam tocadas pela variedade vertiginosa de sua obra, por sua experimentação ousada e alegre, e por sua raiva justificada", diz o diretor criativo. Embora "White Elephant" seja seu primeiro lançamento direcionado a um público internacional, Negro Leo já se apresentou em diversos festivais importantes da música experimental ao redor do mundo –como o holandês Le Guess Who? e o mexicano NRML. Mas o artista segue fazendo a escolha por uma carreira underground, com uma presença discreta nas redes sociais e priorizando pôr sua música em plataformas como o Bandcamp em vez de grandes empresas de streaming. Com uma carreira que se estende por quase 15 anos, o músico se preocupa com as possibilidades materiais de a música experimental se manter no Brasil, citando a fragilidade econômica que ameaça os circuitos independentes brasileiros. "Se a pessoa quiser ouvir minha música, ela vai achar minha música", diz. "Acho que essa característica de nicho sempre vai existir, pelo funcionamento da própria indústria. Mas tem de haver um lugar de dignidade para todo mundo que trabalha com arte –isso tem que estar protegido de alguma forma."

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