Hyderabad (Índia) | The New York Times A maioria das pessoas nunca ouviu falar da fábrica FTO U-3, em Hyderabad, na Índia, mas seus produtos afetam diretamente milhões de americanos. Dentro da unidade, cerca de 1.900 trabalhadores indianos da Dr. Reddy’s Laboratories trabalham ininterruptamente para fabricar mais de 100 medicamentos genéricos, entre eles anti-histamínicos, estatinas e antidepressivos. Das quase 1 bilhão de doses orais produzidas no local a cada mês, 75% são destinadas a pacientes nos Estados Unidos. Técnico trabalha em unidade da Piramal Pharma Solutions, em Digwal, na Índia - Harsha Vadlamani/New York Times A escala da indústria farmacêutica indiana transformou o país em um dos pilares do fornecimento global de medicamentos. Em um setor de alto volume e margens baixas, a capacidade da Índia de fabricar comprimidos por uma fração do custo de outros países criou um obstáculo quase intransponível para os Estados Unidos, que tentam trazer essa produção de volta ao país. O presidente Donald Trump afirmou que quer trazer a fabricação de medicamentos genéricos de volta aos Estados Unidos, usando tarifas para pressionar as empresas farmacêuticas. Em uma publicação nas redes sociais em julho, Trump disse que planejava impor uma tarifa de 100% sobre medicamentos genéricos a partir de 2028, seguida por uma tarifa de 200% um ano depois, quando seu mandato já terá terminado. Os genéricos representam 90% dos medicamentos prescritos nos Estados Unidos, e 40% deles são produzidos na Índia. Quando os Estados Unidos impuseram na terça-feira (6) uma nova tarifa de 100% sobre determinadas importações farmacêuticas, os medicamentos genéricos e muitos outros produtos foram isentos. Médicos e especialistas em cadeias de abastecimento dizem que taxar genéricos importados elevaria os custos, estimularia o racionamento e provocaria escassez de medicamentos essenciais. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesMesmo uma tarifa de 200% sobre os genéricos pode não eliminar a vantagem da Índia. Sudarshan Jain, secretário-geral da Indian Pharmaceutical Alliance, estima que a maioria dos comprimidos e medicamentos líquidos produzidos na Índia custaria pelo menos quatro vezes mais para ser fabricada nos Estados Unidos. A Índia começou a se destacar na produção de genéricos na década de 1970, ao priorizar medicamentos acessíveis para sua população enorme e majoritariamente pobre, em uma época em que as multinacionais farmacêuticas ocidentais não tinham essa preocupação. Durante décadas, o país não reconheceu patentes de medicamentos, enquanto seus fabricantes patenteavam processos desenvolvidos para reproduzir medicamentos vendidos em mercados mais ricos. Quando a legislação de patentes indiana foi adaptada às regras da OMC (Organização Mundial do Comércio), em 2005, as empresas do país já haviam se tornado especialistas no processamento de medicamentos complexos e na produção para boa parte da Ásia, África e América Latina. Na mesma época, os americanos começaram a adotar os medicamentos genéricos. Em 2004, eles já respondiam por mais da metade das receitas médicas aviadas nos Estados Unidos. Os maiores lucros vêm dos medicamentos patenteados. Por isso, "nos EUA, quando a patente expira, você esquece o produto", disse Jain. "Mas, na Índia, os empreendedores continuam trabalhando e desenvolvendo o medicamento e, nesses volumes, você fica melhor em fabricá-lo." Embalagens de medicamentos na unidade da Dr. Reddys Laboratories, fabricante de genéricos, em Hyderabad, na Índia - Harsha Vadlamani/New York Times Esse mercado tende a crescer. Nos próximos cinco a sete anos, 55 grandes patentes avaliadas em US$ 300 bilhões (R$ 1,51 trilhão) por ano expirarão nos Estados Unidos, ampliando o mercado para fabricantes indianos, segundo Jain. A vantagem da Índia não está apenas na experiência. Peter DeYoung, CEO americano da Piramal Global Pharma, em Mumbai, administra mais de uma dúzia de fábricas, inclusive na Europa e nos Estados Unidos. Nos EUA, segundo ele, a mão de obra é o maior custo "com ampla margem", seguida por energia e materiais. Na Índia, a ordem é inversa: os materiais representam o maior custo, enquanto os trabalhadores são a menor despesa. Mennisha Paka, 23, supervisiona uma linha na fábrica FTO U-3 da Dr. Reddy’s Laboratories, onde são embalados medicamentos genéricos de metoprolol, um betabloqueador prescrito a pacientes cardíacos. Ela ganha US$ 3.840 (R$ 19,3 mil) por ano e usa parte do salário para cursar uma graduação em química farmacêutica. Uma de suas subordinadas, Susmita, que usa apenas o primeiro nome, ganha cerca de US$ 2.000 (R$ 10 mil) por ano. As duas mulheres ganham menos de 10% do salário médio de um trabalhador da indústria farmacêutica nos Estados Unidos. Comprimidos de zafirlucaste são despejados em um recipiente - Harsha Vadlamani/New York Times A Índia tem outras vantagens. DeYoung disse que fábricas e processos que levam quatro anos para serem instalados nos Estados Unidos, na Europa ou em Israel —país onde fica a Teva Pharmaceutical Industries, maior fabricante de genéricos do mundo— podem ser concluídos em um ano na Índia. Equipamentos personalizados podem ser produzidos em metade do tempo necessário na Alemanha ou na Áustria. A Piramal fabrica genéricos, mas uma parcela ainda maior de seus negócios está na produção sob contrato para clientes que detêm patentes de medicamentos. Manter fábricas menores nos Estados Unidos facilita, para alguns clientes, o acompanhamento da produção. Essa distribuição geográfica aponta para outro problema na tentativa de produzir todos os medicamentos localmente. As cadeias de abastecimento farmacêuticas modernas não são divididas de forma simples entre produtos fabricados nos Estados Unidos e produtos importados. Um dos milhares de barris lacrados no principal depósito da Piramal, em Digwal, foi produzido na Índia, enviado a Cingapura e depois devolvido ao país. O recipiente tinha a marca de uma empresa japonesa com endereço nos Estados Unidos. Outro medicamento, que DeYoung descreveu apenas como um remédio que salva vidas no tratamento de doenças do sistema nervoso central, inicia sua jornada em Digwal e depois percorre 12.874 km de avião até a unidade da Piramal em Riverview, Michigan. Armazém da Dr. Reddys Laboratories, fabricante de medicamentos genéricos, em Hyderabad, na Índia - Harsha Vadlamani/New York Times Riverview, um subúrbio tranquilo de Detroit, com grandes gramados e igrejas de torres brancas, está muito distante de Digwal, onde vilarejos próximos ainda retiram água de poços revestidos de pedra. Mas máquinas especializadas nos laboratórios da Piramal na Índia e nos EUA trabalham em conjunto para transformar o medicamento em sua forma final. Há boas razões para combinar instalações na Índia com fábricas no mercado de destino, disse DeYoung. Alguns medicamentos exigem produtos químicos especialmente perigosos, inclusive alguns controlados pela DEA (Administração de Combate às Drogas). Outros, como o sevoflurano, um anestésico genérico que a Piramal fabrica tanto na Índia quanto nos Estados Unidos, precisam estar disponíveis mesmo que as cadeias internacionais de abastecimento entrem em colapso completo. Isso levanta uma questão mais fundamental do que saber se as tarifas podem obrigar a fabricação de medicamentos a voltar para os Estados Unidos. "Então, qual problema você está tentando resolver?", questionou DeYoung sobre a possibilidade de uma tarifa sobre genéricos importados. "É trazer de volta empregos farmacêuticos para os trabalhadores americanos? É proteger o fornecimento de medicamentos essenciais?" Enquanto as empresas indianas lidam com a pressão do governo Trump para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à Índia, elas também enfrentam sua própria dependência de outro país para uma parte crítica da cadeia farmacêutica. A partir da década de 1990, a China se tornou a principal fabricante mundial dos princípios ativos necessários para a maioria dos medicamentos. Agora, a Índia tenta recuperar essa capacidade. Isso, segundo Jain, cria uma oportunidade para que Estados Unidos e Índia trabalhem juntos, em vez de separar suas indústrias farmacêuticas. "Se não trabalharmos juntos com os EUA, dependeremos da China" para os ingredientes, disse. Por isso, acrescentou, faz sentido que compradores americanos "formem estoques a partir da Índia", em vez de fabricar os produtos nos Estados Unidos "por seis, sete ou oito vezes o preço".
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