Os olhos indianos estão voltados para a América do Sul. Na busca pelos minerais de que precisam para alimentar a corrida industrial, gerar emprego aos borbotões e reduzir a dependência da China, Nova Déli se concentra, agora, em como transformar compromissos diplomáticos em negócios concretos. No centro dessa guinada está o Brasil, dono de reservas que podem ajudar a moldar, em boa medida, as ambições alimentadas pela Índia. Baterias precisam de lítio, níquel, cobalto e grafita. Motores elétricos e turbinas dependem de terras raras. Redes de transmissão de energia consomem cobre. Painéis solares, eletrônicos, equipamentos militares e semicondutores não existem sem boa parte dessas matérias-primas, todas abundantes em território nacional. As discussões subiram de tom quando o governo indiano colocou o acesso a minerais críticos entre suas prioridades de segurança econômica e passou a procurar fornecedores no exterior. Não se trata só de gerar emprego e erguer novas fábricas, mas também de diminuir uma vulnerabilidade cada vez mais incômoda: a dependência dos chineses. Os indianos sabem que, para crescer e avançar sobre a China, atraindo investidores de outros países, acabam dependendo de fornecimento da própria China. É esse nó que Nova Déli tenta desatar. "Hoje há uma mudança clara em direção aos países da América do Sul", diz Keshav Chandra, secretário do Ministério de Minas da Índia. "Num futuro próximo, veremos uma guinada clara e parcerias mais fortes com os países sul-americanos." Chandra deixa claro que essa aproximação tem explicação geológica. "A América Latina é extremamente importante, porque buscamos grande parte dos nossos minerais na região. As maiores reservas de minerais críticos estão nos países sul-americanos. Então, vamos buscar cooperação mútua, engajamento e amizade", afirma. Não é mera retórica. Em 2023, o governo indiano fechou uma lista de 30 minerais cruciais para seu futuro. Estão nela lítio, níquel, cobalto, cobre, grafita, nióbio e os elementos de terras raras, entre outros. Basicamente, são produtos essenciais para a indústria avançada e, ao mesmo tempo, sujeitos a riscos de abastecimento. O país tem reservas de alguns minerais, mas depende do exterior para abastecer etapas importantes de suas cadeias produtivas. É aí que a China aparece. Pequim começou muito antes a construir uma cadeia de produção que não se limitasse a cavar minas. A China produz hoje cerca de 60% das terras raras do mundo e responde por 85% de seu processamento, segundo dados do governo indiano. A concentração chinesa também ocorre no refino, na separação e no processamento dos minerais para transformá-los em insumos utilizados em baterias, motores e celulares. É justamente nessas etapas que está a vantagem da China. "Como sabemos, a China tomou a liderança nessa área muito antes e está em uma posição confortável", diz Chandra. "Mas, no meu modo de ver, isso não é o fim do mundo. Vivemos em um mundo dinâmico, onde a tecnologia e as parcerias mudam. A China tomou a frente, mas há amplo espaço e oportunidade para que todos possam prosperar." A preocupação indiana aumentou à medida que a China tem adotado controles sobre exportações e tecnologias de processamento. Para países que tentam construir suas próprias indústrias, portanto, uma interrupção de fornecimento deixou de ser apenas um problema de preço e de busca em outros mercados. Virou questão de segurança nacional. Em 2025, o governo indiano criou sua Missão Nacional de Minerais Críticos (NCMM, na sigla em inglês), um plano de Narendra Modi para reduzir a dependência externa de minerais críticos. A ideia é organizar numa única estratégia a busca por novas jazidas, abertura de minas, processamento, desenvolvimento tecnológico e aquisição de minerais no exterior. Os números falam por si. Até 2031, o Serviço Geológico da Índia quer realizar 1.200 projetos de pesquisa em busca de minerais críticos. O plano prevê mobilizar cerca de US$ 4 bilhões em investimentos para garantir ao menos 50 ativos minerais no exterior. O governo também passou a centralizar leilões de áreas para 24 dessas substâncias, depois de alterar a legislação para facilitar a participação privada na exploração. A lógica é procurar dentro de casa tudo o que for possível e buscar fora o que faltar. As fronteiras começam a ser cruzadas. A estatal Kabil, criada para procurar minerais estratégicos no exterior, já avançou em áreas de lítio na Argentina. O Brasil é encarado como próximo destino dos indianos, por ser líder mundial em reservas de nióbio e estar entre os países com maiores jazidas de grafita, níquel, lítio e terras raras. Em fevereiro deste ano, durante a visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Índia, Brasília e Nova Déli assinaram um memorando de entendimento sobre cooperação em terras raras e minerais críticos. Na mesma cerimônia, foi firmado um segundo acordo voltado à mineração para a cadeia de suprimentos do aço. "Sobre esse memorando com o Brasil, o acordo deve progredir naturalmente em direção a investimentos significativos, transferência de tecnologia e parcerias em áreas específicas", disse Chandra. Acordos à parte, a questão é ver como os negócios se darão, na prática. A Índia quer garantir matéria-prima para abastecer as fábricas que pretende instalar em seu território. O Brasil, porém, não quer continuar apenas a extrair minério e colocar pedra em navio. Os indianos dizem concordar. "Vamos aumentar os investimentos em minerais críticos no Brasil, mas o objetivo não é apenas explorar o minério e ir embora, e sim agregar valor localmente e processar com o Brasil", diz Vaishali Sahni, diretor da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da Índia (FICCI) e líder do Grupo de Trabalho de Comércio do Brics, bloco de 11 países do qual Brasil e Índia fazem parte. A ver. O secretário do Ministério de Minas da Índia, Keshav Chandra, é claro ao reconhecer que "ter níquel, lítio ou cobalto não significa nada" se o país não for capaz de produzir a bateria que é usada nos aparelhos e veículos. "Esse é o verdadeiro teste do sucesso", diz Chandra. É uma conclusão que vale para a Índia. E também para o Brasil. Outros memorandos entre Brasil e Índia já se converteram em negócios, de fato. Um deles é o do etanol. Os dois países são parceiros formais no setor desde 2002, quando assinaram um acordo sobre tecnologia para mistura de etanol nos combustíveis. Em 2020, uma nova parceria, mais ampla, envolveu bioenergia. É um jogo de ganha-ganha. Os dois países são grandes produtores mundiais de cana-de-açúcar e donos de mercados gigantescos de combustíveis. Para a Índia, aumentar o uso de etanol significa criar mercado para a produção agrícola, reduzir emissões e diminuir a necessidade de importar petróleo. Em 2023, os dois países, ao lado dos Estados Unidos, lideraram a criação da Global Biofuels Alliance, lançada durante o G20 de Nova Déli. Neste ano, Modi voltou a colocar a cooperação em etanol, combustíveis sustentáveis de aviação e outras fontes renováveis entre os pilares da relação energética com o Brasil. Na aviação, a relação está entrando diretamente no chão de fábrica. A Embraer e a indiana Adani Defence & Aerospace anunciaram em fevereiro deste ano planos para instalar na Índia uma linha de montagem final do E175, jato regional da fabricante brasileira. O acordo prevê mais que vender aviões. As empresas querem construir uma cadeia completa em torno do jato, com fabricação, fornecedores, serviços pós-venda e treinamento de pilotos. Na prática, é uma tradução empresarial do programa "Make in India". O país quer o avião brasileiro, mas quer também aprender, fornecer peças e fabricá-lo em seu território. Minerais, etanol e aviões são negócios distantes entre si, mas contam uma história parecida. O Brasil interessa aos indianos tanto pelo que tem debaixo da terra quanto pelo que aprendeu a produzir acima dela. "Para ter o mineral, primeiro é preciso garantir o fornecimento para depois processá-lo na indústria. A Índia quer estabelecer uma posição nessa área, mas isso não será alcançado isoladamente. Queremos alcançar isso em parceria e colaboração com nações amigas", diz Keshav Chandra. A Índia sabe que grande parte dessa matéria-prima está a mais de 14 mil quilômetros de distância. Nova Déli decidiu que chegou a hora de atravessar o oceano para buscá-la. GERAÇÃO ÍNDIA Este é o terceiro e último capítulo da série que a Folha publicou semanalmente sobre as ambições e os dilemas da economia indiana. Com a maior população jovem do mundo, a Índia enfrenta o desafio de transformar seu bônus demográfico em emprego, renda e desenvolvimento industrial. A série mostra os obstáculos para qualificar trabalhadores, ampliar a manufatura e garantir acesso a minerais estratégicos, além das oportunidades de parceria com o Brasil.
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