Navegadores da Ilha de P�scoa povoaram Hava� ap�s jornada no oceano

Navegadores da Ilha de P�scoa povoaram Hava� ap�s jornada no oceano

Foi uma façanha difícil, quase incompreensível. Um grupo de navegadores da Ilha de Páscoa, no Pacífico Sul, partiu em canoas à vela de casco duplo para uma viagem pelo maior oceano da Terra, que terminou a mais de 7.100 km de distância, no Havaí, o único arquipélago polinésio no Hemisfério Norte. Mas essa odisseia oceânica de séculos atrás não foi um mito. Uma nova pesquisa genética concluiu que os havaianos nativos têm maior proximidade genética com os habitantes da Ilha de Páscoa, também chamada Rapa Nui. "Usando genomas completos, nossos algoritmos conseguem encontrar sequências de DNA perfeitamente correspondentes entre indivíduos de diferentes ilhas, um legado de ancestrais comuns. A partir desses dados, podemos criar árvores genealógicas das ilhas", disse o geneticista computacional Alexander Ioannidis, da Universidade Stanford e coautor de estudo publicado em outubro na revista Science. As descobertas indicam que uma população fundadora vinda da Ilha de Páscoa chegou ao Havaí como os primeiros seres humanos a colonizar o exuberante arquipélago vulcânico. Os dados indicaram que os colonizadores da Ilha de Páscoa chegaram lá no século 13, após viajarem da ilha de Mangareva, na Polinésia Francesa, a mais de 2.400 km de distância, e que parte deles posteriormente partiu para o Havaí. Segundo Ioannidis, essa viagem provavelmente ocorreu no mesmo século. "Examinamos segmentos compartilhados de DNA, variações genéticas e milhares de árvores genealógicas reconstruídas. Em 61% dessas árvores, Havaí e Rapa Nui apareceram juntos. Conferimos isso de quatro maneiras diferentes porque, francamente, ficamos perplexos e, a princípio, nós mesmos não conseguíamos acreditar", afirma Keolu Fox, cientista especializado em genômica da Universidade da Califórnia em San Diego e coautor sênior do estudo. Segundo Ioannidis, teria sido uma viagem incrível. "Em suas canoas, eles levaram as plantas de que precisariam na ilha recém-colonizada, entre elas banana, taro e batata-doce, além de animais como a galinha. Acredita-se que os polinésios empreendessem essas viagens por milhares de quilômetros de oceano para descobrir novas ilhas ricas em recursos e terras onde pudessem se estabelecer", disse Ioannidis. Os pesquisadores reconstituíram essas viagens de tempos remotos com base em dados genéticos que revelaram o grau de parentesco entre habitantes atuais de várias ilhas polinésias, analisando o DNA de mais de mil polinésios. Entre eles estavam 317 havaianos nativos, 12 habitantes de Rapa Nui e oito de Mangareva, além de pessoas das ilhas da Sociedade, Tuamotu, Marquesas, Austrais, Samoa e Tonga. Os dados genéticos mostraram que, entre os havaianos nativos, a ancestralidade de Mangareva ficava atrás apenas da ancestralidade da Ilha de Páscoa. Travessias marítimas monumentais Os pesquisadores atribuem essas monumentais travessias marítimas a uma população de navegadores de longuíssimo alcance, que chamam de Holomoana Nui —expressão havaiana para "grande viagem oceânica"—, tendo o Havaí como o último destino alcançado. Segundo Fox, que é havaiano nativo, eles formaram a maior comunidade de navegadores da história humana. "Os polinésios exploravam e colonizavam o Pacífico séculos antes de os europeus iniciarem suas célebres viagens de descobrimento", disse Fox. "Talvez esteja na hora de repensar quem chamamos de exploradores." Usando dados genéticos, os pesquisadores já haviam rastreado como navegadores polinésios chegaram sucessivamente a diversas ilhas ao longo de séculos, em um dos mais impressionantes processos de povoamento da história humana, mas esse estudo os acompanhou somente até a Ilha de Páscoa. A fundação do Taiti O novo estudo incluiu uma análise genômica detalhada de habitantes do Taiti, uma das ilhas da Sociedade e o local sobre o qual os pesquisadores dispunham do maior número de genomas. Eles conseguiram estimar o tamanho e a época da geração fundadora: cerca de 800 pessoas chegaram ao Taiti por volta do ano 1070. "Como a viagem até o Havaí foi muito mais longa, seria de esperar que sua população fundadora não fosse maior e, provavelmente, fosse menor", disse Ioannidis. Havaianos nativos e habitantes da Ilha de Páscoa compartilham muitos traços culturais encontrados entre os polinésios orientais, incluindo línguas austronésias semelhantes e alimentos parecidos, disse Ioannidis. O estudo tem implicações para o risco de doenças entre havaianos nativos e outros polinésios devido a gargalos genéticos chamados "efeitos fundadores". Esses efeitos surgem quando uma pequena parcela de uma população se separa e dá origem a uma nova população, como ocorreu cada vez que os polinésios se aventuraram até uma nova ilha e ali se estabeleceram. Esse estreitamento da diversidade genética pode aumentar a frequência de algumas variantes genéticas raras, por vezes relacionadas a doenças, enquanto outras desaparecem completamente, disse Ioannidis. Os polinésios repetiram o padrão de colonizar novas terras, intensificando o efeito. "Efeitos fundadores repetidos concentraram variantes raras associadas a doenças nas populações polinésias. Identificamos variantes ligadas a doenças renais e à cegueira que ocorrem com frequência surpreendentemente alta na Polinésia Francesa", disse Fox. Os efeitos fundadores foram amplamente estudados em certas populações, entre elas os amish, os judeus asquenazes e os finlandeses, o que levou à adoção de exames de rotina para determinadas doenças genéticas nesses grupos. "Por que não entre os havaianos?", questionou Fox.

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