Um salário ruim protege um emprego da IA melhor que qualquer talento. Claude Fable, da Anthropic, programa melhor que a maioria dos desenvolvedores plenos e já os substitui nos Estados Unidos; no Brasil, onde a hora custa menos que o token mais inteligente, o mesmo profissional segue firme. Máquinas não competem com talentos, mas com custos. O problema é que o preço de computar o trabalho tende a cair, ainda que mais devagar do que se supunha, já que a demanda por inteligência sintética cresce mais do que a capacidade da indústria de saciá-la. Isso de forma alguma significa que os impactos serão equivalentes em todas as atividades. Mesmo tímida, a substituição em curso já deixa clara a distinção entre os trabalhos cujo produto existe fora de quem o faz e aqueles em que a pessoa é a entrega. Um padeiro gourmet agrega muito e cobra o prêmio correspondente. Mas a panificação é estruturada e as fornadas acontecem às centenas, de modo que é questão de tempo até um robô panificador ombrear os grandes em testes cegos, após ser treinado por milhões de clientes domésticos menos exigentes. O raciocínio vale para toda atividade em escala. O que realmente blinda a contribuição humana nos ofícios em que o objeto-fim lhes é extrínseco é a baixa replicabilidade. Considere o Hélio Schwartsman, escrevendo quase diariamente sobre o estado do mundo, de forma sempre ponderada e genial. Amostras do seu estilo abundam, e a emulação textual é o forte da IA desde antes do ChatGPT. No entanto, a replicação do êxito que o Hélio atinge dependeria de audiências simuladas e de muitos bilhões de rodadas de treinamento específico, já que a quantidade de temas é colossal e a apreciação do leitor é uma função de microvariações de conteúdo e tom, e até do sequenciamento dos textos, para não saturar. Outro caso é o da responsabilização. O CEO decide sob incerteza, muitas vezes com responsabilidade fiduciária por participar do conselho. Por isso, tende a ganhar ainda mais do que hoje em dia, conforme as redes neurais alcancem a média dos colaboradores. Só que esse tempo fatalmente se esgotará, já que há um imenso incentivo para emular suas competências e diluir a responsabilização. Na corrida da IA, o único que ganha sempre é o empresário. A situação é diferente em relação aos trabalhos em que o humano é a entrega. Os otimistas apostam que a explosão de inteligência de máquina barateia bens e serviços em geral, gerando um excedente a ser alocado em guias espirituais personalizados, conversadores a domicílio e violinistas que, arredios à tecnologia, ironicamente seriam os grandes beneficiários da mudança fora do grupo daqueles que a promovem. O barateamento é provável, mas o transbordamento não está garantido. A mesma IA que libera o orçamento das famílias inventa toda semana novas formas de encantamento e diversão, e o dinheiro que sobra corre para a novidade, não para o violinista. Creio que o destino dessas ocupações esteja mais para o da professora primária. Todo mundo a ama, todo mundo agradece a cruz que carrega, mas na hora de pagar, ninguém se dispõe a ir além do mínimo. Quando as IAs predominarem, o intrinsecamente humano não será substituído, mas reverenciado. O mundo paga em estima o que deixou de pagar em salário. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Nada protege um emprego como um sal�rio ruim
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