Na Fran�a, a guerra civil molecular faz parte da paisagem h� muitos anos

Na Fran�a, a guerra civil molecular faz parte da paisagem h� muitos anos

"Nada explica, nada desculpa." Foi assim que o atordoado presidente da França comentou a destruição selvagem que se abateu sobre o país. Ele tem razão. Nada desculpa. Mas será que nada explica, Emmanuel? Temo que o sr. Macron esteja sendo modesto. Ele, um leitor refinado da melhor filosofia, nunca leu "Guerra Civil", o ensaio profético de Hans Magnus Enzensberger? Porque é de uma guerra civil que se trata. Sim, no início, as manifestações eram racionais e legítimas. Quem não quer escolas melhores? Quem não quer mais professores? Já não estamos falando disso. Quem luta por escolas melhores não destrói escolas. Quem luta por mais professores não espanca professores. Nem queima prédios históricos. Nem saqueia lojas de luxo e pequenos negócios. A França se entregou a uma orgia de violência porque a "guerra civil molecular" faz parte da sua paisagem social há muitos anos. A expressão é de Enzensberger, no ensaio citado, e provocou polêmica em 1993. Entendo a polêmica. O mundo celebrava o "fim da história" e a vitória definitiva da democracia liberal sobre os totalitarismos do século 20. Um cético como Enzensberger veio estragar a festa. Depois da Guerra Fria, afirmava ele, a violência principal não seria entre Estados. Seriam guerras civis de larga escala (como na ex-Iugoslávia) ou de pequena escala, dentro das próprias cidades ocidentais. E quem travaria essas guerras moleculares? Militantes organizados, como terroristas ou skinheads, mas também cidadãos comuns, jovens, entediados e enraivecidos. Em nome de quê? De nada. Nazistas e comunistas justificavam a violência com um projeto de sociedade. Na guerra civil molecular, a violência basta a si mesma. Não é dirigida contra judeus ou burgueses. É contra todos e contra ninguém. É, no fundo, contra qualquer um. Da mesma forma, não é uma violência para criar um Reich de mil anos ou uma sociedade sem classes. Nem sequer tem um líder capaz de articular um programa. A guerra civil molecular é atomizada e descentralizada. E, mesmo que a derrota seja certa, o que vale é a excitação da ruína. Claro que a ideologia pode aparecer como adereço, admitia o autor. O fundamentalismo religioso, o nacionalismo, o neonazismo e outros ismos sempre ficam bem na lapela. Além disso, têm a vantagem de "racionalizar" o que não é racionalizável. Pena. A guerra civil molecular não é racionalizável, e é por isso que perturba tanto a tradição política do Ocidente. Enzensberger dava como exemplo os distúrbios em Los Angeles em 1992, quando os revoltosos incendiaram sobretudo instalações da sua própria comunidade negra, incluindo a mais antiga livraria do país dirigida por negros.Por último, quem destrói não se importa com a própria destruição. Nesse sentido, Enzensberger dizia que os delinquentes dos subúrbios de Paris não eram muito diferentes dos bandos armados de Mogadício, na Somália. Os primeiros destroem o posto de saúde que atende gratuitamente suas famílias; os segundos destroem o único aparelho de raio X do hospital, que poderia, em tese, salvar a vida deles. Na França dos últimos dias, quantos serviços públicos não foram arrasados por quem mais precisa deles? Uma pergunta que, obviamente, não entrou nos cálculos dos criminosos. É de niilismo que estamos falando, sr. Macron, essa palavra antiquada que não se confunde com a simples revolta. A revolta nasce da injustiça, lembrava Camus, mas procura não cometer novas injustiças, sobretudo contra inocentes. É um "não" à humilhação que se converte num "sim", numa proposta de mudança. O niilismo também pode nascer da injustiça, mas só oferece um não absoluto. Um não à humanidade, à decência e à razão. E tende a se agravar, observa Enzensberger, à medida que o Estado, a lei e a ordem se retiram. Na verdade, a guerra civil molecular começa muito antes de se tornar evidente. Começa com lixo acumulado, pneus furados, orelhões depredados, carros incendiados. São pequenos "incômodos" tratados como tal: o Estado os ignora, e os cidadãos também. Quem pode foge para longe; quem não pode também não tem voz, só medo. E ainda há quem "justifique" o colapso com a última teoria sociológica da moda. Numa das passagens mais polêmicas do ensaio, Enzensberger lembra a sua infância na Alemanha nazista, quando a "população civil inocente" se refugiava dos bombardeios das tropas aliadas. Mas seriam todos inocentes? Ou muitos, por ação ou omissão, contribuíram para a sua própria desgraça? É uma pergunta incômoda. Mas é precisamente a pergunta que Macron, e com ele toda a França, deveria ter a coragem de enfrentar. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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