Tecnicamente, não era nem verão no hemisfério norte, mas os termômetros já chegavam aos 38°C em Bouzeron, no sul da Borgonha, em junho deste ano, quando passei cinco dias visitando produtores da região. Eles estavam tensos com a colheita, que, ao que tudo indicava, deveria ocorrer mais cedo mais uma vez. Nos últimos anos, o calor crescente na região tem feito com que se antecipe, todos os anos um pouco mais, a data da vindima. O objetivo é evitar a sobrematuração das uvas, que faria bebidas mais pesadas e com menos acidez. Essa nova realidade de anos mais quentes, verões intensos e a quase extinção da névoa pela qual a Borgonha foi conhecida já tem efeito nos vinhos, que hoje ficam prontos para beber mais rapidamente. Antigamente, a região era conhecida por tintos leves com acidez muito alta que precisavam de tempo de garrafa para um amadurecimento. Isso fazia com que os desavisados que abriam garrafas meio jovens achassem os vinhos ácidos beirando o desagradável. Após uns anos de espera, no entanto, as bebidas atingiam um ápice de complexidade e equilíbrio que tornou a região uma das mais queridas do mundo —e seus preços entre os mais estratosféricos. Agora o perigo é outro: o de bebidas passadas que nada se parecem com a Borgonha mítica, além da queda da produção. Em visita ao Domaine Faiveley, ouvi do enólogo-chefe Jérôme Flous que "o clima muda, o vinho muda", mas é difícil o consumidor entender por que um vinho de um ano frio, ao estilo borgonhês antigo, pode ser completamente diferente do vinho de um ano extremamente quente. O calor também muda os hábitos. A jornada de trabalho nos vinhedos, por exemplo, agora começa às 5h e se encerra às 12h, quando o sol já está para lá de inclemente. Como visitante, minha sensação foi a de que a expressão "um sol para cada um" era literal e eu tive que me virar com lenços e outros tecidos que protegessem minha pele (o protetor solar não foi suficiente) e não me matassem de calor. Bordeaux, região cujos vinhos andam em baixa nas tendências de mercado, foi uma das que mais sofreram com incêndios causados pelo calor e a seca, como se fosse um Super Trunfo do azar. Em Champanhe, a colheita deste ano aconteceu 30 dias antes do que era comum há uma década. A região, segundo o Ministério da Agricultura, terá a menor safra do país, a metade do que foi no ano passado, e com níveis alcoólicos que podem chegar aos 15%, algo que não era permitido antes. A França, como um todo, terá uma redução histórica. Deve ser a menor safra em 30 anos, de acordo com anúncio do governo no começo desta semana. As notícias se somam a um contexto de menos consumo global, excedentes na produção e incentivos para que os produtores arranquem seus vinhedos e, assim, controlem os preços. Tudo isso ocorre ao mesmo tempo em que o vinho francês perde seu principal mercado, os Estados Unidos, que agora impõem altas tarifas para o comércio internacional. A nós, brasileiros, cabe um interesse renovado da França pelo nosso mercado. Desde o ano passado, a Borgonha, região cujas garrafas são disputadas em todo o mundo, faz ações de divulgação no Brasil. Nosso país é uma espécie de unicórnio entre os mercados de vinho: o consumo sempre foi tão baixo que não mostra saturação e queda, já que ainda está em curva de crescimento. Senti o interesse pelos brasileiros na pele ao visitar os produtores da Borgonha. Eles mostraram algumas de suas grandes safras, muitas cuvées (como são chamados os diferentes rótulos) e perguntaram bastante sobre os hábitos do consumidor do país. Meu palpite é que podemos esperar uma enxurrada de novos rótulos nos próximos anos. Minha campanha é que lutemos por um preço que não tente compensar as perdas deles nos nossos bolsos. Vai uma taça? Biodinâmico e natural, o pét-nat Rosa, Rosé, Rosam, 2022 (R$ 198 na De la Croix) feito pelo Domaine La Grange Tiphaine no Loire é um corte de gamay, grolleau e côt (a malbec francesa), entre outras uvas, bem original. Fresquinho, com nota de morango e flor e com uma doçura agradável, vai bem só, mas pode ser o rei de uma tábua de queijos. Vale até com uma sobremesa leve e cremosa como uma panacota. Do sul da Borgonha, o branco Masse Mâcon Villages 2022 (R$ 269 na Anima Vinum) traz um chardonnay mais redondo e quente. Já o Maison Jaffelin Cuvée des Chanoines de Notre-Dame Chardonnay 2022 (R$ 139 na Chez France) é um achadinho de um produtor que oferece boas surpresas. Dele, também vale o Jaffelin Crémant de Bourgogne Brut (R$ 259 na Chez France). A jornalista viajou a convite do Bureau Interprofessionnel des Vins de Bourgogne (BIVB), conselho dos vinhos da Borgonha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Na Borgonha, vi (e senti) o calor que est� mudando o vinho franc�s para sempre
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.