Na Argentina, deputada trotskista desponta como poss�vel concorrente de Milei � Presid�ncia

Na Argentina, deputada trotskista desponta como poss�vel concorrente de Milei � Presid�ncia

A pouco mais de um ano das eleições presidenciais, uma opositora radical do ultradireitista Javier Milei tem se destacado em pesquisas de aprovação popular. Myriam Bregman, deputada trotskista e dirigente do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas), apelidada entre os correligionários de "Russa" e por críticos de "Zurda", uma alcunha pejorativa para "esquerdista", tem ganhado centralidade no cenário político. No último dia 12, uma pesquisa divulgada pelo Observatório de Psicologia Aplicada da Universidade de Buenos Aires apontou que 44% dos argentinos têm uma imagem positiva de Bregman –o maior índice entre todos os políticos avaliados. Milei, por exemplo, é visto com bons olhos por 38% da população. Já a ex-presidente Cristina Kirchner, expoente da esquerda tradicional, por 40%. A UBA entrevistou 2.895 pessoas, com margem de erro de 2 pontos percentuais. A socialista Bregman, que defende em seu livro "Moderada Nunca" (ed. Iskra), recém-lançado no Brasil, a tomada dos meios de produção pelas classes trabalhadoras, também enfrenta grande rejeição, é claro. São 43% os que dizem ter dela uma imagem negativa. Ainda assim, porém, o saldo é positivo —por 1%, mas positivo. É mais do que podem dizer Milei e Kirchner, que possuem rejeição de 61% e 58%, respectivamente. O principal desafio para uma possível candidatura competitiva em 2027 —ela terminou com 2,7% em 2023— é também sua maior força: sua posição aparentemente irredutível contra alianças. Bregman é uma dura crítica tanto do presidente quanto de seus antecessores da esquerda tradicional. "Sem a cumplicidade de setores do peronismo e do radicalismo de partidos tradicionais, Milei não teria conseguido aprovar nenhuma das medidas que aprovou", diz ela à Folha em entrevista em São Paulo. "O peronismo, que dirige as centrais sindicais, decidiu não enfrentar seriamente Milei, talvez especulando que ele faça o 'trabalho sujo' do ajuste para eles voltarem depois como o 'mal menor'", afirma. Ela atribui a eleição de Milei a um cansaço com a esquerda reformista e com o "neoliberalismo tradicional", representado por figuras como Mauricio Macri, presidente entre 2015 e 2019. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo "Depois da onda de governos progressistas dos anos 2000, veio uma ofensiva da direita porque terminou o auge econômico das matérias-primas. Muitos governos entraram em crise interna, como na Bolívia ou na Argentina", analisa a deputada. "Esses governos não fizeram reformas estruturais para minar o poder econômico concentrado, e a direita aproveitou a oportunidade. No entanto, nem uns nem outros conseguem se estabilizar devido ao descontentamento das massas populares que não param de perder." Aí, veio a ultradireita. "Milei aproveitou um sentimento anticasta para se eleger, mas rapidamente aliou-se aos políticos da direita tradicional para conseguir sustentar seu governo. Seu gabinete hoje é composto majoritariamente por personagens que estiveram nos governos de [Carlos] Menem, de Macri e inclusive do peronismo, como Daniel Scioli [vice-presidente de 2003 a 2007, durante o governo Néstor Kirchner]", diz a deputada. Essa sensação de continuidade é o que angaria simpatia por seu mandato —e possível candidatura—, avalia. Advogada, Bregman participou do julgamento de militares acusados de crimes na ditadura, é militante feminista e pelo direito ao aborto. Em seu livro, propõe medidas como a redução da jornada de trabalho e até a tomada de fábricas para auto-organização da produção como alternativas para o fim da eterna crise econômica argentina e do desemprego. A presença de uma força de esquerda radical no Congresso e nas eleições já soa surpreendente vista do Brasil. O equivalente oficial do PTS de Bregman por aqui é o MRT (Movimento Revolucionário de Trabalhadores), grupo trotskista sem representação política institucional. Já o PSTU, também de orientação trotskista, poderia ser visto como um equivalente partidário ao PTS, embora venham de correntes ideológicas distintas. Não possui nenhum deputado ou senador no Congresso e sua candidata à presidência, Vera Lúcia, teve 0,02% dos votos. Na Argentina, a Frente de Esquerda, composta pelo PTS e pelo Partido Operário, tem cinco representantes: além de Bregman e seu companheiro, Nicolás del Caño, há mais dois deputados do PTS e uma parlamentar do PO. "As alianças com o peronismo já fracassaram na Argentina", diz Bregman, questionada sobre como seria possível eleger-se sem montar uma coalizão com essas forças políticas que, apesar de desgastadas, seguem relevantes. "Todos os que ingressaram com essa esperança de que iam mudar o peronismo por dentro estão completamente em crise ou já se dissolveram." O que Bregman propõe é que a campanha seja feita através de uma base social. "Nós acreditamos que se essa discussão [sobre apoio] for feita durante a eleição, você já perdeu", afirma. "Nós vemos que há muita simpatia por nós na Argentina, e nossa proposta é que essa simpatia seja organizada desde agora", explica. "Que todos aqueles que veem com simpatia nossas ideias se organizem em comitês para conhecer nossas ideias", afirma a deputada. A ideia, diz, seria a de organizar um amplo partido de trabalhadores, que incluiria a esquerda radical, para disputar as eleições com essa organização de base —sem necessidade de se aliar a outros partidos. "A chave da direita é a nossa fragmentação, é o individualismo, é dizer que você vai avançar apenas se pisar na cabeça do sujeito ao lado", afirma a Russa. Bregman ainda não confirma que concorrerá em 2027, embora as análises políticas apontem para isso. A própria visita da parlamentar ao Brasil, para o lançamento do livro em que expõe suas ideias para a construção de uma alternativa radical à esquerda reformista, busca consolidá-la como figura pública na América Latina, não apenas na Argentina. Se a estratégia e a aparente simpatia do público darão resultados nas urnas, apenas o próximo ano dirá.

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