Da graça à loucura. O rosto belo e distorcido de Gretta Sarfaty, numa série de autorretratos criados como uma performance diante do espelho e da câmera, já motivou críticos a descrever dessa forma sua transformação diante dos olhos do público. Todos somos, afinal, cheios de graça e de loucura, beleza e feiura. Artista ímpar, feminista de primeira ordem e deslumbrante na tradução disso tudo para a fotografia e a pintura, ela abre na semana que vem uma grande retrospectiva no Museu Judaico de São Paulo. O espaço no centro paulistano reúne 60 trabalhos da artista realizados ao longo das últimas cinco décadas, entre eles fotografias, registros de performances, vídeos e pinturas. A seleção de Patricia Wagner deve dar mais relevo à questão da transparência no trabalho da artista, que usa véus, rendas e espelhos na construção de obras que põem o corpo da mulher, muitas vezes o da própria artista, no limite do visível. É sua tentativa de investigar o lugar dessa presença em transe, a metamorfose que a leva de musa idealizada no pedestal a monstro grotesco enjaulado. Nascida em Atenas e radicada em São Paulo, depois de temporadas em Paris, Milão, Nova York e Londres, Sarfaty se aproximou ao longo da carreira da chamada "body art", vivendo o auge da performance no circuito global da década de 1970, dominada por mulheres extraordinárias, como a cubana Ana Mendieta, a americana Carolee Schneemann, a francesa Gina Pane, a sérvia Marina Abramovic e a austríaca Valie Export. MUNDO CÃO O artista Ismael Monticelli aproveita a abertura de sua mostra na semana que vem, na galeria Portas Vilaseca, no Rio de Janeiro, para contar que era ele o criador até agora anônimo por trás do perfil @newmemeseum. Nos últimos cinco anos, até sua conta ser retirada do ar, ele usou memes e piadas ácidas do submundo das redes sociais para debochar do "grand monde" das artes visuais, atacando a pompa e a pose de curadores, galeristas e críticos. Sua mostra agora relembra o absurdo de "A Metamorfose", de Franz Kafka, e parte de uma premissa curiosa. E se fossem os cachorros a dominar o mundo? Em suas pinturas, vídeos, esculturas e instalações, Monticelli põe cãezinhos para investigar e questionar tudo aquilo que nós humanos achamos normal. Na superfície, o tom é de deboche surreal, mas o artista diz querer refletir sobre a fragilidade humana ao pôr os bichos no nosso lugar, lembrando a lógica de desenhos animados em que patos, gatos e coelhos sofrem acidentes e violências terríveis e voltam sem nenhum arranhão ao próximo quadro do desenho animado. PÉ NA ESTRADA Depois de décadas vivendo em Berlim, o artista Alex Flemming voltou a viver em São Paulo, onde nasceu, mas não sem antes uma preparação para o retorno. Ele decidiu viajar por toda a extensão do território nacional de ônibus e narrar tudo o que viu numa espécie de diário de viagem. O resultado é "Do Rio Tacutu ao Chuí", livro que ele lança no fim do mês, na Biblioteca Mário de Andrade. NOVOS FRUTOS O coletivo Caroço, plataforma de pesquisa de artistas independentes criada há quatro anos na Vila Ipojuca, na zona oeste paulistana, ocupa nesta semana o térreo do edifício Martinelli, clássico arranha-céu do centro da cidade, com um leilão beneficente. O dinheiro da venda de obras de artistas como Ana Raylander Mártis dos Anjos, Antonio Obá, Castiel Vitorino Brasileiro, Cildo Meireles, Paulo Nazareth, Sonia Gomes, entre outros, vai para a manutenção do grupo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Museu Judaico rev� a obra radical de Gretta Sarfaty em grande retrospectiva
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