Muralistas traduzem tens�o eleitoral em retratos para a Folha do domingo de elei��o

Muralistas traduzem tens�o eleitoral em retratos para a Folha do domingo de elei��o

Os artistas Paulo Ito e Carlos Eduardo Doy, o Sosek, assinam imagens da edição da Folha deste domingo (4), dia do primeiro turno das eleições. Muralistas, os dois retrataram o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), principais candidatos ao Palácio do Planalto, em obras na primeira página e a capa do caderno de Política. A escolha segue uma tradição do jornal. Desde as eleições de 2010, ao menos, a Folha convida um artista para ilustrar a capa da edição publicada no dia do pleito. A página recebe um tratamento gráfico diferente do habitual. Ensaios fotográficos, intervenções artísticas, desenhos e pinturas já ocuparam o espaço. O objetivo é traduzir em imagem o momento político. Antes do convite, as equipes de Arte e de Fotografia do jornal alinham com a Secretaria de Redação qual a linguagem mais adequada para aquele ano. O objetivo é levar ao leitor um produto gráfico em sintonia com as questões de cada votação. Neste ano, uma lista de nomes de artistas plásticos, grafiteiros e muralistas foi apresentada à Secretaria de Redação. Três artistas foram pautados e dois foram escolhidos para a edição de domingo, conta Kleber Bonjoan, editor de Arte do jornal. O pleito de 2026 tem sido marcado por uma disputa presidencial acirrada e polarizada. Por isso, afirma, "não podíamos escolher algo caricato ou engraçado". A decisão deveria aproximar o leitor do clima de tensão da eleição atual. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados O mural feito pelo paulistano Paulo Ito, 48, ocupa a primeira página. Os retratos, antes de chegarem à parede, foram rascunhados em papel com a técnica do desenho cego. O artista conta ter assistido a diversas entrevistas dos dois principais candidatos ao Planalto e, sem olhar para o papel, diz ter começado a esboçar as expressões e rostos. "A partir daí você tem várias posições de cada um e vai juntando as versões. O resultado é bastante imprevisível", diz. O próximo passo foi passar os traços para o digital. "No tablet, você ajusta proporção, modifica. Dá até para dizer que eu decorei os dois rostos depois desta etapa." Para se manter fiel às proporções no retrato de cada candidato, Paulo projetou a imagem digital na parede de seu ateliê, para então começar a pintar. Tinta spray, acrílica e látex foram os materiais escolhidos por ele para compor a obra. "Eu não queria passar a linha para a parede e depois pintar, queria ir direto com uma área de cor." Cada retrato parte de uma expressão que Paulo considerou característica. Em Flávio, ele estendeu as rugas da testa acima da linha do cabelo, como alguém que está "se explicando". Em Lula, suavizou a sobrancelha em V, que considerou um traço que deixa a expressão mais agressiva. O trabalho de Sosek, nome artístico de Carlos Eduardo Doy, 43, aparece na capa do caderno de Política deste domingo (4). Paulistano, ele começou a escrever nos muros em 1997 e, desde 2014, leva para o ateliê o squeezer, um marcador comum no grafite. A tinta da ferramenta escorre ao ser utilizada e oferece pouco controle ao traço, recurso que o artista diz gostar. Para os retratos, ele estudou fotos dos candidatos, fez um esboço a lápis e decidiu colocá-los em uma posição que demonstrasse oposição. Desta vez, o estudo foi mais longo do que ele costuma fazer. A intenção era evitar a caricatura e, mesmo com a imprecisão do traçado do squeezer, deixar claro quem eram os retratados. Segundo o artista, seria possível desenhar expressões neutras ou sorridentes, mas ele preferiu enfatizar a tensão do momento. "Acho que me chamaram por isso, para mostrar esse clima pesado que cerca as eleições", afirma. A busca por uma linguagem nova se repete a cada pleito. Para o editor de Fotografia da Folha, Otavio Valle, o esforço é perceber o que está acontecendo no noticiário e traduzir isso de forma visual. "A ideia é sempre buscar uma linguagem inovadora, oferecer ao leitor um material que cause reflexão e que o leve para o que ele procura na Folha." Ele relembra algumas capas emblemáticas que ajudou a produzir. Em 2022, o fotógrafo Bob Wolfenson retratou Lula e Jair Bolsonaro (PL) para a disputa eleitoral. Em 2024, cenas de campanha da eleição municipal em São Paulo foram registradas com câmera Polaroid, num cruzamento entre o analógico e o digital. Mas a capa mais marcante, segundo ele, foi a da eleição municipal de 2020, em meio à pandemia de Covid-19. À época, o jornal fotografou as máscaras usadas pelos candidatos à Prefeitura de São Paulo e elaborou um gráfico com o equipamento de proteção e a cor do partido de cada concorrente. "Para mim foi muito marcante porque foi um período muito difícil para o mundo, para o país, e o nosso trabalho aqui foi muito exaustivo. Todas as equipes trabalharam intensamente."

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