Pouca coisa tira o sorriso da empresária mineira Liliane Ávila, 43. Uma delas é ouvir, quase sempre de homens, que é incansável ou guerreira. "Sou guerreira, não. Sou normal. Sou igualzinha a você", costuma responder. Para ela, a vida seria menos cansativa com divisão mais justa entre homens e mulheres do trabalho doméstico, dos cuidados, das oportunidades de negócios e da participação social e política. Mãe de dois filhos, Liliane vive em Belo Horizonte e está se separando após 25 anos de casamento. É ela quem comanda a empresa de uniformes e fantasias que sustenta a família e também cuida da mãe idosa. Sem tempo para discussões políticas, não decidiu seu voto para presidente. Entre amigos, empresários como ela, o apoio a Flávio Bolsonaro (PL) é quase unânime. Em casa, filhos e nora defendem Lula (PT). "Eu queria mesmo uma cara nova", diz. "Alguém que fale a minha língua." Em outubro, um país polarizado decidirá nas urnas seu rumo sem mulheres entre as candidaturas mais competitivas à Presidência. Elas, porém, são maioria do eleitorado: quase 53%, ou 9 milhões a mais que os homens. Nas eleições de 2026, elas também estão mais indecisas que os homens. Segundo o Datafolha, 29% ainda não decidiram em quem votar, contra 16% deles. A diretora do instituto, Luciana Chong, diz que mulheres costumam demorar mais para decidir. "São mais cuidadosas, mais atarefadas, e demoram mais para se envolver na discussão eleitoral." Também são menos influenciadas que os homens por amigos, filhos, líderes religiosos e cônjuges, mostrou o Datafolha de julho. A Folha percorreu diferentes cidades do Brasil para ouvir mulheres de múltiplas realidades, perfis e inclinações políticas, entender o que pesa em seu voto e conhecer o país que cada uma sonha para si. Os retratos combinam múltipla exposição e imagens geradas por inteligência artificial a partir das respostas de cada entrevistada sobre seu imaginário de um Brasil melhor. O resultado é como se cada mulher estivesse dentro do próprio sonho. Nesse exercício, Liliane fala em liderança, num trono de rainha —não de guerreira— e num horizonte de igualdade. Indecisa sobre o voto, ela tem clareza sobre o que importa. "O que vai me fazer decidir são propostas concretas para mulheres que trabalham. Creches, combate à violência obstétrica e incentivo à empreendedora", explica Liliane. Mais da metade das casas brasileiras são comandadas por mulheres, que também acumulam a maior parte do trabalho doméstico não remunerado e dos cuidados. Para Bianca Gomes do Prado, 30, falta espaço para essas questões na política. "A mulher tem que provar que consegue ser uma boa líder, boa mãe, boa dona de casa, boa tudo. Enquanto o homem só precisa ser escutado, entendeu?" Bianca cria sozinha o filho de 9 anos, na ocupação do Bode, no Recife. Recebe R$ 650 mensais pelo Bolsa Família e faz bicos para complementar a renda. Sonha com uma boa escola e um lugar onde as crianças, entre elas seu filho negro, possam correr com segurança e sem racismo. O cenário que evoca é o da praia de sua infância. Votará em Lula, que considera mais sensível aos pobres, embora menos à esquerda do que gostaria. Flávio não é opção, sobretudo pela associação com o pai, Jair Bolsonaro. "Prefiro uma pessoa que é nordestina e que olha para cá do que um sulista que já disse com todas as letras que não gosta de nordestino nem de mulher e que preferia a morte a um filho gay." Entre as mulheres, Flávio tem rejeição de 50%, contra 43% de Lula, segundo o Datafolha. Na pesquisa de setembro, Lula tinha 9 pontos de vantagem sobre Flávio entre elas; entre os homens, Flávio estava 2 pontos à frente. Para a professora Flavia Biroli, da UnB, a maior rejeição feminina à direita e à extrema direita está relacionada, entre outros fatores, à maior percepção das mulheres sobre a importância do Estado em áreas como educação e saúde. Convicta no voto em Flávio, a gaúcha Marlise Rosler, 53, não o poupa de críticas. "Não é porque é de direita que vai deixar de ser machista, né?", diz, referindo-se ao conflito do candidato com sua madrasta, Michelle Bolsonaro, que acusou o enteado e candidato publicamente de desrespeitá-la e desmerecê-la como figura política relevante. Casada, católica e mãe de dois filhos, Marlise é arrimo da casa com o salário de assessora política em Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre. Envolvida com política desde o grêmio estudantil, já foi de esquerda, mas se decepcionou. Candidatou-se a vereadora e atribui a derrota, em parte, à falta de financiamento adequado. Hoje, uma suposta doutrinação política de esquerda nas escolas, a crítica ao assistencialismo e a defesa da liberdade econômica reforçam sua opção pela direita. Parte dessa visão veio do Alicerça Brasil, projeto liderado por Michelle Bolsonaro para aproximar mulheres de direita da política. "Temos uma luta por representatividade feminina. Quanto mais a mulher sabe, mais se apropria dos debates sobre políticas públicas para as mulheres." Seu sonho é estar entre mulheres e representá-las. Marlise cita um vídeo da prefeita de Guaíba, Claudinha Jardim (PL), circulando por Brasília. "Eu quero transitar por esse ambiente. Isso para mim é sucesso." O desejo esbarra na baixa presença feminina no poder: mulheres ocupam 17,8% das cadeiras da Câmara federal, e o Brasil está na 133ª posição entre 183 países no Mapa Mulheres na Política de 2025, da União Interparlamentar e da ONU Mulheres. A educadora goiana Ana Flavia dos Santos, 39, diz não gostar de extremismos. "Não gosto de ter só duas opções", afirma. Mãe de dois adolescentes, evangélica, Ana Flavia também cuida da avó em casa, em Itumbiara (GO). Sonhou ser médica, mas desistiu, em parte pela falta de apoio do então companheiro, de quem se separou por se sentir sozinha em muitas instâncias da vida. Formada em química, encontrou na educação uma profissão que combina com algo que atravessa sua trajetória: o cuidado. Hoje, comanda a coordenadoria estadual de ensino da região, com cerca de mil servidores e milhares de alunos. Talvez por isso seu sonho de país seja também um sonho de convivência: mais tempo com a família, boa educação e todos juntos ao ar livre. "Uma mesa grande, cheia de gente, com bastante família, um jardim bonito", imagina. Gosta da visão de Augusto Cury (Avante), mas votará em Ronaldo Caiado (PSD). "Eu vi ele empoderar mulheres e colocar a educação em primeiro lugar." Conquistado em 1932, ainda que com restrições, o direito feminino ao voto foi resultado da mobilização de mulheres. Hoje, esse direito é novamente questionado por vozes que defendem o voto da família em lugar da escolha individual. As 15 entrevistadas para a série rejeitaram a ideia, independentemente de sua posição política. Para a historiadora Heloisa Starling, mulheres progressistas e conservadoras participam da vida política brasileira desde o século 19. "A reivindicação dos direitos é talvez o coração da democracia, porque você faz a democracia se movimentar", afirma. "O resultado é uma cultura democrática muito forte no caso das mulheres, e por isso elas são uma ameaça em um ambiente misógino", diz. "Porque elas têm uma história e também porque sofrem diuturnamente a discriminação." O sonho de Starling também parte de sua própria vida: "Eu na biblioteca com meus alunos pensando em um futuro, pensando juntos o Brasil, escrevendo livros. E com a música da Nara Leão."
Mulheres s�o maioria entre eleitores indecisos e contam o que mobiliza seu voto em 2026
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