O verão deste ano na Europa teve um excesso de 50 mil mortes em áreas urbanas, dois terços delas devido à mudança climática. A estação, com ondas de calor sequenciais e recordes de temperatura, é a mais letal no continente ao menos desde 2000, superando as marcas de 2003 (28 mil) e 2022 (29 mil). As conclusões estão em dois estudos assinados por cientistas do Imperial College e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. O primeiro trabalho, que abrange de 2000 a 2025, foi publicado na revista Nature Health; o segundo, relativo ao verão europeu deste ano, já foi aceito para publicação pelo mesmo periódico. Nesse caso, o termo excesso refere-se ao número de óbitos acima do valor esperado para o período em condições normais. Marcada por incêndios florestais sem precedentes em Espanha, França, Bélgica e Grécia e também por secas e níveis historicamente baixos de rios e reservatórios, a temporada foi a mais quente já registrada na Europa Ocidental, com 2,9°C acima da média de referência (1991-2020). Os termômetros subiram até 12°C acima do esperado em algumas regiões. As análises reuniram dados de 854 centros urbanos do continente, abrangendo cerca de 40% da população de 30 países (os 27 da União Europeia mais Reino Unido, Noruega e Suíça). Segundo Malcolm Mistry, um dos autores, o campo foi determinado por estudos anteriores, a oferta mais consistente de registros de temperatura nessas regiões e também pelo fato de o calor ser um problema de saúde pública mais severo nas cidades. Cruzando os registros de temperatura com estatísticas da relação histórica entre calor e mortalidade, foi possível obter estimativas de mortes em excesso em cada localidade durante os verões de 2000 a 2026. A metodologia foi então comparada aos números oficiais e se mostrou consistente. O passo seguinte foi repetir o método com as temperaturas que seriam esperadas para cada um dos centros urbanos observados sem a influência do aquecimento global, provocado sobretudo pela queima de petróleo, carvão e gás natural. A comparação dos resultados permitiu então verificar o quanto do excesso de óbitos se deve à mudança climática. Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas "O resultado destaca a necessidade de reduções rápidas nas emissões para desacelerar o ritmo de aquecimento futuro, juntamente com medidas robustas de preparação e adaptação", afirma Claire Barnes, pesquisadora do Centro de Política Ambiental do Imperial College, também responsável pelos estudos. Das 50 mil mortes em excesso detectadas pela metodologia, 32 mil podem ser atribuídas à mudança climática. "O impacto foi maior entre os idosos. Pessoas com 85 anos ou mais representam cerca de metade das mortes estimadas", conta Garyfallos Konstantinoudis, professor-assistente do Graham Institute, que observa também uma variação geográfica. "O norte da Europa apresenta a menor taxa de mortalidade padronizada por idade, enquanto o sul responde pela maior." Segundo o especialista, a discrepância geográfica pode ter razões variadas. "Reflete sobretudo onde as temperaturas foram mais altas, mas também pode indicar diferentes aspectos de vulnerabilidade, como, por exemplo, aumento da poluição do ar, infraestrutura limitada de áreas verdes, acesso a sistemas de saúde e alertas." Um terço das mortes ocorreu em uma única onda de calor, a registrada de 17 de junho a 1° de julho, que alcançou 5,3°C de aquecimento em relação à média de 1991 a 2020. Segundo Konstantinoudis, a metodologia desenvolvida nos estudos pode se tornar uma ferramenta de planejamento para as autoridades públicas. "Políticas podem ser definidas e executadas a partir da previsão meteorológica, permitindo que os serviços de saúde se preparem para eventos extremos antes que eles ocorram", diz. "Acho que podemos afirmar com bastante confiança que o verão de 2026 foi o pior já registrado em termos de mortalidade relacionada ao calor em boa parte da Europa", diz Barnes. "Por trás dessas estatísticas estão pessoas reais, que perderam a vida, e famílias reais, que choram por elas." A temporada escaldante suscitou diversos debates sobre adaptação nas grandes cidades, notadamente sobre o dilema de massificar ou não sistemas de ar condicionado, mas quase nenhum avanço em mitigação foi obtido. Pelo contrário, vários países europeus defendem neste momento o relaxamento de legislações ambientais em nome da segurança energética, devido aos conflitos em curso, e também para diminuir custos. Novas discussões sobre os estragos da onda de calor "mais intensa e abrangente da história da Europa", como definiu um pesquisador no primeiro estudo de atribuição da temporada, que seria impossível de ocorrer sem a mudança climática, terão que esperar até o próximo verão. A Europa, quarto maior emissor de gases de efeito estufa após EUA, China e Índia, é o continente que mais rapidamente aquece no planeta.
Mudan�a clim�tica levou a 32 mil mortes em ondas de calor no ver�o europeu
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